Aí eu me afogo num copo de cerveja


Pesquisa mostra que machos de moscas-das-frutas privados de sexo buscam prazer na bebida alcoólica. O comportamento pode ajudar a esclarecer mecanismos envolvidos na geração de sensações agradáveis em humanos.

Por: Mariana Rocha
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A cena é clássica: rejeitado por sua amada, o homem afoga as mágoas na bebida. Embora seja típica das novelas, essa história se passa em um
laboratório em Maryland, nos Estados Unidos, onde machos da espécie Drosophila melanogaster – mais conhecida como mosca-da-fruta –
buscaram prazer no álcool após serem desprezados quando tentavam copular com as fêmeas.

Durante a pesquisa, foram observados dois grupos de moscas. No primeiro, os machos eram colocados junto a fêmeas virgens e, após cortejá-las, a
cópula acontecia sem problemas. Já o segundo grupo era formado por machos expostos a fêmeas que já haviam copulado e rejeitavam nova
atividade sexual, fugindo e chutando os possíveis parceiros.

Logo após a atividade sexual, frustrada ou não, os dois grupos tinham a possibilidade de ingerir líquidos com e sem etanol. Enquanto o primeiro
grupo consumiu a mesma quantidade das duas bebidas, o segundo exibiu uma preferência significativa pelo líquido com etanol. O objetivo dos
cientistas era entender os mecanismos químicos envolvidos na busca pelo álcool.

Veja abaixo o vídeo que mostra o comportamento das moscas durante a experiência

Álcool e drosophila

O estudo, publicado esta semana na revista Science por pesquisadores da Universidade da Califórnia e do Instituto Médico Howard Hughes, nos

Estados Unidos, descreve o álcool como um substituto do sexo na tentativa de obter prazer. Assim como em humanos, o prazer sentido pelas
moscas é atingido através da ativação do sistema de recompensa, formado por neurônios capazes de liberar substâncias que geram sensações
agradáveis.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas analisaram os níveis de neuropeptídeo F (NPF), substância responsável por estimular o sistema de
recompensa das moscas. Logo após a tentativa frustrada de copular, os machos exibiam níveis muito baixos de NPF, que aumentavam após o
consumo de bebida alcoólica. “Tanto o etanol quanto a exposição a fêmeas que permitiam a cópula aumentaram os níveis de NPF, mostrando que
essa substância é fundamental nos mecanismos que geram prazer”, explica Galit Shohat Ophir, biólogo que faz parte da pesquisa.

Rejeição x privação sexual

Os pesquisadores procuraram então entender se a experiência emocional de rejeição sofrida pelas moscas é o principal fator responsável pela
dependência do álcool. A resposta poderia ajudar na compreensão de mecanismos bioquímicos envolvidos em distúrbios humanos como depressão
e estresse pós-traumático, que também são influenciados pela interação social e estão associados a níveis abaixo do normal do neuropeptídeo Y
(NPY ), um análogo do NPF.

O novo experimento envolveu a união de machos virgens – teoricamente, ansiosos pela cópula – com fêmeas decapitadas, que, apesar de não

rejeitarem os machos, também não participariam da atividade sexual. Quando expostos ao líquido com etanol, esses machos apresentavam o
mesmo nível de dependência que o grupo rejeitado, mostrando que o principal agravante na busca pela bebida é a privação sexual em si e não a
sensação de rejeição.

A descoberta pode ajudar na busca por tratamentos para os distúrbios humanos. Segundo Galit, o NPY está envolvido em muitos processos
bioquímicos e pode ser difícil descobrir medicamentos que regulem seus níveis. “Entender como funcionam os mecanismos envolvidos na
produção do NPF das moscas pode esclarecer dúvidas sobre a formação dos neuropeptídeos humanos”, completa o pesquisador.

Mariana Rocha
Ciência Hoje On-line

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2012/03/ai-eu-me-afogo-num-copo-de-cerveja

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