Pela volta do culto ao brasileiro comum!


Cultuar celebridades é o grande barato da nossa sociedade. É o ganha-pão de muita gente – dos paparazzi indesejados aos jornalistas que queriam cobrir uma Copa na época da faculdade e, quem diria, hoje trabalham em revista de fofoca.

Falar de famosos, relatar detalhadamente suas vidas, é algo que acontece em maior ou menor escala em toda comunicação brasileira – é parte integrante do Yahoo! Brasil dar as notícias dos pops que vocês querem ler nesse site todos os dias, nem que seja para vocês meterem o pau depois… Do mesmo modo que praticamente todo mundo aqui gosta de ler as citações dos famosos na sessão “Veja Essa”, da Veja. E eu mesmo, que hoje sou repórter de um programa de TV, destino parte do meu tempo para entrevistar celebridades de todo tipo, das mais tops às internacionais, quando dá.

Em resumo, seja como produtores ou consumidores de mídia de famosos, estamos todos envolvidos num mesmo momento: o de exaltação das pessoas públicas. As celebridades são super-heróis da atualidade. Não só aqui, mas em boa parte do mundo.

Vejo isso de duas formas — a primeira, como espectador, assim como cada um de vocês, leitores anônimos. E a segunda, como formador de opinião, produtor de conteúdo. E, seja de uma maneira ou de outra, o fato é que constato algo muito ruim: nós estamos perdendo o tesão com o indivíduo comum, com o ser cotidiano.

Os grandes heróis brasileiros não são mais os brasileiros de raiz, os “raçudos” que matam um leão por dia. A gente pública é que está no alto do pódio e que é modelo para crianças e jovens. O pessoal quer ser o Neymar na vida, e não porque ele joga pra caramba. O Neymar é rico, vai em festas e pega um pessoal. Ao menos, é isso que falam dele para vender jornal. Que ele se ferra praticamente todo dia em treinos pesadíssimos, ninguém lembra.

E por que pregam coisas alienadas a respeito das pessoas públicas? Por que endeusam suas vidas a ponto de nos fazer crer que, de fato, elas levam uma existência dos sonhos, com dez mil possibilidades a mais? Ora, porque isso de fato vende. E a ideia romantizada de celebridades bem-sucedidas e romantizadas em seus patamares atingidos de perfeição é o que querem os leitores, espectadores e curiosos de plantão. Ou isso ou o extremo oposto. Há, também, uma expectativa invejosa de que esses tops passem fome logo, se ferrem bastante com drogas e decadência e, com isso, tenhamos nossa sede de injustiça social vingada de uma vez. Em resumo, ambas situações são apavorantes no que se refere ao entendimento de nossa sociedade de espetáculo.

As novelas, essas sensacionais encenações da vida real (mas com final feliz), já refletem esses novos tempos. Em “Vale Tudo”, do Gilberto Braga (1988), Raquel Accioli era uma mulher do povo que chegou a vender sanduíche na praia para viver. Era o que lhe restava depois de ser sacaneada pela filha, Maria de Fátima, que era o extremo oposto: uma biscate oportunista que queria a fama e riqueza como ideal de vida. No final, ambas se deram bem, cada uma com seu objetivo. Mas as pessoas amavam a Raquel e detestavam a Maria de Fátima, como nunca. Como pode uma mulher querer fama e riqueza a qualquer custo? Vai trabalhar, minha filha! Vai trabalhar duro como a sua mãe, que trabalha duro como cada um de nós!

Hoje, a Suelen de Avenida Brasil, quer se dar bem com jogador de futebol na base da “periguetagem”. E as pessoas amam a Suelen, se identificam com ela. A atriz Ísis Valverde a compôs (e muito bem) a partir de tipos sociais já existentes e que hoje se orgulham de ver a “ídola” a interpretá-las: as “periguetes”. Ela não é uma vilã como a Maria de Fátima, mas tenho certeza que seria praticamente vista como uma pela sociedade brasileira de 1988, que valorizava mais o trabalho, e menos a exposição; o oportunismo; a futilidade.

O desencanto com o brasileiro comum é reflexo de um “saco-cheísmo” (e me perdoem pelo termo, mas não achei outro) coletivo com a rotina, impunidade, injustiças e desigualdades sociais. Como o país parece não ir pra frente em alguns desses pontos, por mais que estejamos crescendo como potência e nação, mais o sentimento de impotência social cresce. Aumenta o número de brasileiros integrando a classe média, mas aumentam as baderneiras que fazem os ricos cada vez mais ricos, e deixam os pilantras do mensalão cada vez mais próximos de suas absolvições.

Chegar ao auge dos recursos pelas vias normais, pelo trabalho honesto, parece um ideal inalcançável. De duas uma, pensa o cidadão comum: ou roubo e me uno aos canalhas, ou crio um atalho pra vida boa através da fama e dos holofotes. E dá-lhe inscrições recordes pro próximo BBB, mães desesperadas com filhos em testes de talentos mirins, garotas querendo ficar gostosas para pegar jogadores, gente querendo fazer música pop pra vender, etc, etc, etc. É uma pena tudo isso.

No meio de toda essa constatação triste, tenho três orgulhos pessoais. Eu lido com celebridades em um programa bacana, o CQC, que trata justamente de quebrar o ciclo vicioso de comunicação de massa que aliena quem está em casa e endeusa quem está na tela. Posso dar os meus escorregões na minha abordagem com famosos, mas é fato que me preocupo com alguma provocação, com um humor, alguma sacanagem que tire os caras do lugar comum, algo que HUMANIZE esses já personagens de si mesmos… vai ser difícil você me ver perguntando “como está esse coraçãozinho?” para algum famoso. Tenho orgulho de interagir com eles profissionalmente de modo a quebrar essa mítica que lhes ronda, ainda que não consiga obter êxito nessa proposta sempre.

O outro orgulho nasceu de algo que batalhei como consequência de trabalho, e não como finalidade: como pessoa pública que me tornei, acredito ter a minha consciência tranquila. As pessoas me assistem trabalhando, e é pelo trabalho que eu apareço. Infelizmente, se você “googar” meu nome na internet, verá que eu também fui evidenciado em notícias sem importância ou fofoquinhas desnecessárias. Alguns escorregões meus justificam isso, bem como a aproximação de gente que não agregou nada ou só quis se utilizar de mim em benefício próprio (teve uma aí que foi bizarra…). Acontece. Mas permaneço fixo na televisão desde 2007, quando comecei na Band, porque trabalho, trabalho e trabalho. Disso, os maledicentes de tocaia não lembram.

Por fim, o orgulho maior: eu sei o que pensar disso tudo. Me entretenho como consumidor de celebridades como qualquer outro, mas tenho uma base familiar sólida que me faz saber, até hoje, o que é realmente importante, no que acreditar e em quais valores me apegar. Esse último orgulho você também pode ter. Lembre das coisas que são essenciais na vida mesmo, no que você aprendeu como etéreo, o que faz a diferença… Se apegue a isso, e tudo bem.

Por fim: leia as notícias dos famosos, veja suas matérias, seus vídeos, as entrevistas dos caras… mas não endeuse, não mitifique, não hipervalorize. Divirta-se com o que as pessoas públicas te oferecem, consuma à vontade! Mas volte, por favor, a valorizar, amar e defender o abandonado brasileiro raçudo que mata um leão por dia e que, esse sim, é um herói de verdade!

Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/rafael-cortez/pela-volta-culto-ao-brasileiro-comum-194111363.html

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