Estudo investiga o “reconhecimento” na poesia grega


Conceito aristotélico de anagnórisis serve como eixo de livro lançado por professora de literatura da USP

Agência FAPESP – O reconhecimento e o autorreconhecimento, isto é, a descoberta da identidade, do outro ou de si mesmo, são temas recorrentes na mitologia, no folclore e na literatura – tão antigos quanto os primeiros épicos e tão atuais quanto as mais recentes produções televisivas.

Já no Mahabharata, a milenar epopeia indiana, que descreve a grande guerra entre os Pandavas e os Kauravas – duas famílias principescas unidas pelos laços de sangue, mas antagonizadas pela conduta moral –, um dos personagens centrais luta a guerra toda do lado errado por desconhecer sua verdadeira identidade, que só lhe é revelada tardiamente.

O livro Cenas de reconhecimento na poesia grega, lançado recentemente por Adriane da Silva Duarte, professora de língua e literatura grega na Universidade de São Paulo, é todo dedicado às cenas de reconhecimento na poesia grega, arcaica e clássica. A obra teve apoio da FAPESP para publicação.

Originalmente uma tese de livre-docência, o livro tem por eixo o conceito de anagnórisis (reconhecimento), tal como foi definido na Poética de Aristóteles. E, ao lado da leitura teórica do texto aristotélico e de seus principais comentadores, investiga as antológicas cenas de reconhecimento que aparecem nos grandes épicos de Homero – Ilíada e Odisseia –, nas tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, e nas comédias de Aristófanes e Menandro.

“Além de ser um recurso estruturador da narrativa, capaz de promover o desenlace de um conflito e dotado de grande apelo emocional, sua vasta presença, igualmente atestada nos mitos, sugere que o reconhecimento seja antes uma resposta às inquietações do homem acerca de sua origem e de sua identidade”, escreveu a autora.

Por certo o caso mais famoso de reconhecimento na tragédia grega, magistralmente explorado por Sófocles, é o de Édipo, o príncipe de Tebas, que, por ignorar sua verdadeira identidade, mata o pai, Laio, e se casa com a mãe, Jocasta, com quem tem quatro filhos. Ao reconhecer como pai o homem que matou e como mãe a mulher que desposou, Édipo fura os próprios olhos – “para não ter que contemplar as consequências de ser quem é”, explicou Duarte.

A trama, como se sabe, impressionou profundamente Freud (1856-1939), que fez do chamado “Complexo de Édipo”, que considerou universal, o mecanismo fundamental da psicanálise.

A recorrência do tema

“Enquanto elemento de poética, a anagnórisis tem uma longa história, alcançando os nossos dias, e manifestando-se na literatura, no cinema e em outras formas culturais”, disse Duarte.

No livro, ela menciona o fato de o termo “reconhecimento” ser hoje de uso corrente no universo jurídico, quando se fala em “reconhecimento de uma prova”, “reconhecimento de um cadáver” ou “reconhecimento da paternidade”.

Mas seu estudo concentra o foco, criteriosamente, na poesia grega. “Procurei explorar o conceito a partir da perspectiva aristotélica, que restringe o reconhecimento à identificação entre indivíduos. Exclui da análise, portanto, os casos em que um personagem reconhece um erro ou uma verdade – embora Édipo, além de reconhecer que Jocasta é sua mãe, toma consciência de quem de fato é”, disse Duarte.

E por que um tema tão antigo, ambientado em sociedades em tudo diferentes da atual, continua reverberando intensamente no mundo contemporâneo? “Entendo a permanência do motivo como uma resposta à nossa necessidade de saber quem somos e, assim, orientarmos nosso comportamento em sociedade”, disse.

“Hoje, a ideia do auto(re)conhecimento tem um apelo muito forte por conta do impacto da psicanálise. Pressupõe-se que o indivíduo nunca é passível de reconhecimento pleno, nem pelos outros, nem por si próprio, havendo camadas ocultas da psique que eclodirão um dia. É o mito do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro. Assim, se na Antiguidade o reconhecimento estava mais em função do outro (e da relação que estabelecemos com ele), hoje ele se centra mais no eu”, destacou a autora.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/16680

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