Noção de Ma intriga ocidentais e inspira livro


Agência FAPESP – A palavra Ma tornou-se conhecida, fora do universo referencial da cultura japonesa, depois da exposição Ma, Espace-Temps du Japon, realizada no Louvre, em Paris, no já distante ano de 1978. A apreensão de seu significado, no entanto, continua a ser um desafio para a mente ocidental, que se identifica com as coisas. Exatamente porque Ma não é uma coisa, mas um espaço entre coisas.

Ele participa de todas as instâncias da existência, mas raramente foi considerado como tal no Ocidente, exceto nos vislumbres de alguns artistas geniais, como o de Clarice Lispector quando escreveu, em Perto do coração selvagem, que “entre a mão e os objetos, existe alguma coisa além do ar”.

Um estudo aprofundado sobre o tema está agora ao alcance dos leitores brasileiros, no livro Ma: entre-espaço da arte e comunicação no Japão, de Michiko Okano, publicado com o apoio da FAPESP e da Fundação Japão.

Nascida e alfabetizada no Japão, mas residente desde os 8 anos no Brasil, Michiko, atualmente professora de História da Arte da Ásia no curso de História da Arte da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera que a sua trajetória existencial, tecida no desvão entre duas culturas, é, ela mesma, uma expressão do Ma.

“O Ma, esse espaço intermediário no qual algo novo pode ser gerado, não é uma singularidade da cultura japonesa. O singular é sua valorização”, disse a pesquisadora em entrevista à Agência FAPESP.

Como tal o Ma está presente em um sem-número de expressões culturais do Japão: da distância que as pessoas devem manter entre si quando se cumprimentam da maneira tradicional, inclinando respeitosamente a cabeça, às pausas narrativas, com a câmara se detendo em objetos e paisagens, nos célebres filmes de Ozu Yasujiro (1903-1963), considerado o “mais japonês” dos grandes cineastas japoneses; do espaço que deve ser observado entre as porções de comida na composição de um prato típico ao genkan ou hall de entrada das residências, no qual as pessoas tiram os sapatos, em uma espécie de rito de passagem entre o espaço público e o espaço privado.

Essas e muitas outras expressões do Ma são comentadas com requinte de detalhes no livro de Michiko. “Não se trata do mero espaço intermediário, mas de um espaço intermediário onde algo novo pode irromper”, explicou a estudiosa. “Na visão tradicional, é um vazio onde o Divino pode se manifestar a qualquer momento, instaurando um novo sentido.”

A polissemia do Ma decorre exatamente de sua indeterminação. Por não ser uma coisa, ele pode se tornar o campo de manifestação de qualquer coisa. Valeria, no caso, a mesma afirmação feita por Fernando Pessoa em relação ao mito: “o nada que é tudo”. De maneira menos solene, a pesquisadora lembrou que sempre brinca com seus alunos, dizendo que “a pessoa que não tem namorado ou namorada tem um espaço disponível, ou seja, pode ter, em princípio, qualquer namorado ou namorada”.

Já presente na antiga cultura xintoísta, muito antes da entrada do budismo no Japão (provavelmente ocorrida por volta do século VI d.C.), a noção de Ma foi, depois, altamente apreciada e refinada no contexto do zen-budismo, com sua estética do “mínimo essencial”.

Um exemplo famoso, citado por Michiko, é o do jardim de pedras e areia do templo Ryoan-ji, em Kyoto. “Ele é um espaço com poucos elementos, formado apenas por 15 pedras, dispostas de forma muito peculiar sobre uma base de areia. Onde quer que a pessoa se sente, ela não consegue ver as 15 pedras de uma só vez.”

“Esse jardim, despojado e silencioso, é uma expressão depurada do Ma e um instrumento de meditação”, prosseguiu. “E a própria meditação é Ma, pois é um ‘esvaziar-se’, um ‘não pensar’, mas não um ‘pensar em não pensar’, que já se torna um pensar, porém simplesmente um ‘deixar o pensamento fluir’, sem acompanhá-lo”.

Em outra chave cultural, também a arquitetura contemporânea brasileira incorporou brilhantemente o vazio criador a suas soluções, como na marquise do Parque do Ibirapuera, projetada por Oscar Niemeyer (1907-2012). Com seu formato irregular, aproximadamente 620 metros de comprimento e largura variando entre 15 e 80 metros, esse grande espaço intervalar é muito mais do que uma passarela coberta entre diferentes edifícios. E suas formas de utilização têm-se mostrado tão imprevisíveis quanto a imaginação dos frequentadores do parque.

Essa imprevisibilidade, mais ainda, esse caráter fugidio e inapreensível, é uma das grandes características do Ma. Por isso, um ator de Kabuki afirmou que existe um Ma que dá para ensinar e um Ma que não dá para ensinar. É essa qualidade misteriosa, intraduzível em palavras, que faz a diferença entre a grande obra de arte e a mera imitação.

Fonte: http://agencia.fapesp.br/16862

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