Cavernas do Brasil: ciência no escuro


A natureza se transforma, e novos animais surgem à medida que a luz desaparece nas profundezas

por Adriano Gambarini (texto e fotos)

A escuridão é absoluta. O que enxergamos não vai além de uma estreita área iluminada pela luz fraca e amarelada do carbureto dos capacetes. Ao observar as lanternas esparsas focadas no solo ressequido do salão em penumbra, de repente me vem à lembrança o rio Betari, no interior de São Paulo, nas noites sem lua em que seu vale era dominado por milhares de vaga-lumes voando rente ao chão. O silêncio é ensurdecedor e, ao mesmo tempo, orquestral; gotículas de água que despencam do teto agregam sons agudos a uma melodia minimalista.

Espalho dezenas de flashes pelos cantos da caverna na serra do Ramalho, no sertão baiano, tentando fotografar apenas com a tecnologia de temporizadores e disparos remotos. Enquanto isso, os cientistas que acompanho se debruçam sobre montes de guano de morcegos, vasculhando o que mais se assemelha a uma pilha de lama. De cócoras ou deitados de bruços, varrem o solo com a ponta úmida do pincel. O fedor do lugar poderia afastar pessoas desavisadas, mas, para eles, representa a possibilidade de novos achados. São garimpeiros de formas de vida inéditas lidando com a invisibilidade do mundo subterrâneo, sempre à espera de que um diminuto animal possa dar o ar da graça e se movimentar em meio ao fino sedimento. “Encontrei um pseudoescorpião enorme! Tem outros embaixo de umas pedras”, grita uma bióloga. Da mesma forma que vieram, suas palavras somem na vastidão escura. Tento localizar o inseto, camuflado entre os torrões de areia, até perceber que a palavra “enorme”, dita com tanto entusiasmo, refere-se a uma criatura de uns 8 milímetros de comprimento.

Exausto após horas de prospecção, o grupo faz uma pausa para lanchar e discutir as variadas espécies de invertebrado encontradas no dia. Depois, nada mais resta, senão tomar outro rumo: o conduto do rio de águas frias que talvez seja moradia de crustáceos ou de alguma espécie de peixe cego com grandes bigodes.

Pouco ainda se sabe dos minúsculos e excêntricos animais cavernícolas. Mas essa fauna misteriosa, acreditam os cientistas, pode ser uma das chaves da compreensão de intricados processos evolutivos em condições tão extremas. Se é possível afirmar que as cavernas são as últimas fronteiras ainda não totalmente exploradas pelo homem, a chamada espeleobiologia é a porta de entrada a um labirinto rumo ao desconhecido.

Em termos biológicos, uma caverna pode ser dividida em três zonas: de entrada, de penumbra e afótica. Nessa área mais escura, a ausência de luz – e, portanto, de energia luminosa – impede a produção de fotossíntese e o crescimento de vida vegetal. Assim, o ambiente externo fica responsável por suprir toda a cadeia alimentar interior, que dependerá também de outros processos. Um deles é a ação de fungos e bactérias que sintetizam quimicamente qualquer detrito vegetal ou animal, carreado para dentro da gruta por rios, enxurradas, fezes de morcego ou mesmo pela infiltração das águas através das fraturas na rocha. Em um paradoxo sobre a codependência entre todas as formas de vida do planeta, pode-se dizer que as bactérias, seres extremamente simples, cumprem um papel fundamental na perpetuação das formas de vidas complexas da caverna. Um exemplo clássico ocorre na Azufre, no México, onde a altíssima concentração de enxofre na água impediria a sobrevivência de qualquer ser. No entanto, a existência de bactérias capazes de sintetizar compostos orgânicos com base no consumo de enxofre permitiu a formação de uma considerável população de peixes.

O breu da zona afótica, com suas criaturas misteriosas, é o que mais intriga os biólogos. O caminho para lá sempre apresenta dificuldades. Muitas vezes, ao seguir pelo corredor principal da caverna rumo às profundezas, os espeleólogos deparam com salões entupidos por sedimentos e blocos de rocha, trazidos por enxurradas recorrentes, bloqueando a passagem que os levaria a algum provável rio subterrâneo.

 

NG - Apenas 10% dos animais das cavernas brasileiras foram estudados até hoje, entre eles alguns pequenos crustáceos

 

Apenas 10% dos animais das cavernas brasileiras foram estudados até hoje, entre eles alguns pequenos crustáceos – Foto: Adriano Gambarini

O estudo de sedimentos carreados para o interior da terra é um promissor campo de pesquisas – a chamada geoespeleologia. O mesmo rio capaz de alagar e modificar um caminho subterrâneo também é responsável por alimentar toda uma ordem de seres vivos. São justamente esses restos de vegetais e animais arrastados que suprem os ambientes sob a superfície terrestre com matéria orgânica para garantir a vida de peixes, crustáceos e outros invertebrados aquáticos. A fauna diversificada do mundo subterrâneo não se restringe às cavernas. Recentes estudos em águas de lençóis freáticos comprovaram a existência de bichos peculiares, como a piaba Stygichthys typhlops, encontrada em um poço no interior de Minas Gerais, que apresenta características relacionadas à vida na escuridão.

Em 2010, a gruta dos Brejões, no município baiano de Morro do Chapéu, foi palco de uma importante descoberta. A entrada tem um imenso pórtico, de 106 metros de altura, em que se descortinam salões amplos, nos quais o teto abobadado evidencia intensos fluxos de água em tempos remotos. Durante o procedimento de busca e contagem de invertebrados no substrato de rochas do rio, a bióloga Maria Elina Bichuette reconheceu uma forma não regular de vida. Várias pequenas esponjas brancas despontaram na superfície lisa dos seixos arredondados. Meses depois, análises deram o veredicto: o primeiro registro brasileiro e a segunda descoberta mundial de uma esponja de água doce cavernícola, descrita com o nome de Racekiela cavernicola.

A fauna subterrânea pode ser classificada em três categorias. Os animais chamados trogloxenos são comuns em cavernas, mas dependem do ambiente externo para completar seu ciclo de vida, sobretudo na alimentação. Estão nesse grupo morcegos, lontras, algumas espécies de ave e invertebrados. Já os troglófilos são capazes de sobreviver apenas dentro das grutas, mas apresentam populações fora desses ambientes – inclusive, podem manter relações reprodutivas entre si. Por fim, os animais troglóbios são 100% residentes e dependentes dos meios subterrâneos. São as espécies mais especializadas, com feições oriundas da inexistência de luz, como a ausência completa dos olhos e de pigmentação. Tais animais evidenciam uma intrigante história evolutiva. Compreender seus processos adaptativos pode resultar em grandes contribuições para o entendimento de muitas questões biológicas de todos os organismos vivos.

Não é de hoje que os animais cavernícolas chamam a atenção da ciência. A mais antiga representação conhecida de um deles data de 30 mil anos atrás: um grilo entalhado em um osso de bisão encontrado em uma caverna dos Pirineus franceses. Tal entalhe é tão perfeito que possibilitou até mesmo a identificação do gênero do pequeno invertebrado. Outra descoberta importante remonta ao século 17, e aconteceu de forma casual. Relatos atribuem a um pescador de trutas do interior da Eslovênia a descoberta de um “dragão” branco que vivia em grutas de sua região. Na realidade, a criatura era uma pequena salamandra branca, depois identificada como Proteus anguinus, o primeiro troglóbio registrado pela ciência mundial. No Brasil, a inédita descrição de um animal com esses traços ocorreu em 1907: o bagre-cego-de-iporanga, ouPimelodella kronei – uma homenagem a Richard Krone, destacado espeleólogo.

Um notável banco de dados da biodiversidade subterrânea brasileira está hoje no Laboratório de Estudos Subterrâneos da Universidade Federal de São Carlos – uma coleção com mais de 3 500 lotes de invertebrados e peixes coletados em diversos sítios do país. “Apenas nos últimos três anos, 50 novas espécies foram confirmadas”, diz Maria Elina, que coordena esse centro de pesquisas. Os estudos dali já trouxeram à luz novos gêneros de animais, além daqueles que devem representar novas famílias. A dificuldade, porém, não reside apenas no campo, em que tive a chance, nos últimos quatro anos, de documentar diversos trabalhos de coleta e amostragem. O maior esforço dos pesquisadores acontece mesmo é em laboratório, onde precisam observar, com o uso de lupa, detalhes da morfologia dessas criaturas desconhecidas e comparar, de forma minuciosa, com espécimes similares da coleção local e da literatura já publicada. “As descrições sistemáticas das chaves de identificação, ou dicotômicas, nos permitem uma busca aproximada de nomes de grupos. Depois, complementamos a pesquisa consultando colegas especialistas de universidades brasileiras e instituições internacionais”, continua Maria Elina. “É um trabalho árduo e demorado para que a descoberta da espécie tenha o rigor que a ciência exige.”

espeleobiologia no Brasil começou a aparecer nos anos 1980, com estudos de grupos taxonômicos e levantamentos em diversas cavernas. A pioneira pesquisadora Eleonora Trajano tem sido responsável pela formação de muitos biólogos e pela coleção de espécimes da Universidade de São Paulo. Hoje, o Brasil desponta como detentor da fauna cavernícola mais bem estudada na América do Sul, e possui a segunda maior diversidade de peixes troglóbios do mundo. Uma boa amostra dessas criaturas está na região de Igatu, na chapada Diamantina, Bahia. Nas grutas dali, as pequenas cavidades outrora exploradas por garimpeiros de diamante são formadas de quartzito, um tipo de rocha com características distintas das de calcário.

Dois anos atrás, ao longo de vários dias, percorremos sinuosas trilhas no sertão sob os cuidados de Chiquinho, ex-garimpeiro que hoje se tornou guardião e mentor das descobertas de Maria Elina na área. As montanhas, entrecortadas por vales profundos, denotam a força geológica de tempos remotos, e a Caatinga esverdeada de julho misturam-se a uma mata ciliar preservada, com enormes samambaias-açu brotando das encostas. Chegamos a uma pequena gruta cuja entrada é pouco convidativa: o conduto principal é um leito de rio raso. Alguns poços mais profundos delineiam um sistema hídrico peculiar, disposto de forma aleatória. O teto plano e baixo exige o vigor de engatinhar por grandes distâncias. Após longas horas de esforço e observação, os biólogos reconhecem sutis vibrações nas águas paradas dos poços: são pequenos peixes brancos que nadam suavemente em busca de alimento. Com redes de coleta, conseguem reunir exemplares suficientes para descrever, depois, a espécie Glaphyropoma spinosum.

A identificação e a descrição de um animal cavernícola podem durar décadas. Um caso típico ocorreu em outra caverna da chapada Diamantina, o poço Encantado, um lago de águas azuis, de 64 metros de profundidade, hábitat de um bagre despigmentado cuja descrição durou quase 20 anos. A pesquisa para estudo de comportamento, ecologia e descrição de sua pequena população começou em 1993. Acompanhei várias expedições para coleta do peixe e mapeamento subaquático do lago. Sempre temeroso de um risco: as águas do poço são tão cristalinas que provocam no mergulhador certa sensação de miragem, que tira a noção de profundidade – notada apenas quando os efeitos da narcose por nitrogênio afetam os sentidos. Não à toa, uma das características mais marcantes do bagrinho branco é uma estrutura bem desenvolvida chamada pseudotímpano, que amplia sua percepção sensorial. A identificação definitiva só ocorreu em 2012, com o nome científico de Rhamdiopsis krugi, hoje considerada uma das espécies de peixe troglóbio mais antigas do Brasil.

A serra do ramalho é uma das regiões com maior perspectiva para o estudo de cavernas do país. Mas a carência de infraestrutura na maioria das agrovilas da zona rural da cidade homônima é proporcional ao potencial científico, assim como os rumores ecoados pelos moradores sobre a prospecção de minerais, um perigo para o mundo subterrâneo. Em 2012, foi noticiada a descoberta de 28 milhões de toneladas de neodímio – elemento do grupo de minerais conhecido como “terras raras”, valioso para o uso em equipamentos como smartphone ou tablet.

Logo ao amanhecer, a paisagem árida do sertão revela-se em campos de lapiás – formações de rocha calcária erodidas –, decorados por árvores barrigudas. A serra cinza-chumbo nos acompanha na margem esquerda da estrada. Mandacarus despontam na Caatinga, e o calor não dá trégua às trilhas que cortam os campos até se chegar aos paredões rochosos. A equipe decide concentrar seus esforços na busca de invertebrados terrestres, pois a região seca e quente possibilita a ocorrência de espécies como amblipígeos e alguns opiliões, distintas das encontradas nas cavernas úmidas da região Sudeste do Brasil.

Mais uma vez imerso no silêncio das buscas no piso arenoso da gruta, de olho nos biólogos, concentrados em tantos detalhes, fico pensando nas diferentes formas que as águas esculpiram naquele ambiente. As paredes, salpicadas de estruturas minerais brancas e frágeis, parecem corais marinhos. Pequenas depressões no chão são cobertas por milhares de caramujos; raízes rasgam o teto da gruta, em busca de umidade. Alguns salões perto da entrada são preenchidos por sedimentos recentes, que evidenciam a impermanência dos ambientes subterrâneos. Quantos processos sucessivos e avassaladores já aconteceram nesse ambiente, e sob quais condições, até chegar a esse estágio de aparente equilíbrio? Há quanto tempo imperceptíveis seres vivos vêm desafiando as condições inóspitas e sendo moldados pelos mais diferentes processos evolutivos? Se bem estudadas, as cavernas podem se tornar uma importante janela para o passado, de onde constataremos, entre intermináveis descobertas, que nada é estático, afinal.

Fonte: http://viajeaqui.abril.com.br/materias/cavernas-do-brasil-ciencia-no-escuro-espeleologia?pw=1

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