Imitando a natureza


Ganhador do Nobel de Medicina de 1978 por uma descoberta que levou ao desenvolvimento da engenharia genética, o microbiólogo suíço Werner Arber defende transgênicos nutritivos e diz que a sociedade deve ser corresponsável pelos rumos da ciência.

Por: Carla Almeida

Imitando a naturezaO microbiólogo Werner Arber durante sua palestra no 61º Encontro de Prêmios Nobel de Lindau sobre ‘Noções atualizadas da evolução darwiniana’. Arber falou do conhecimento atual sobre variações genéticas naturais e artificiais. (foto: divulgação)

Primeiro, entender como a natureza funciona. Depois, tentar imitá-la. A estratégia, muitas vezes utilizada na ciência, levou ao desenvolvimento de uma de suas mais controversas técnicas: a engenharia genética.

Dentre muitos cientistas, três atuaram como protagonistas na história desse feito: os microbiólogos Werner Arber (Suíça, 1929-) e Daniel Nathans (Estados Unidos, 1928-1999) e o biólogo molecular Hamilton O. Smith (Estados Unidos, 1931-).

Os três receberam, em 1978, o Prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia pela descoberta das enzimas de restrição. Essas estruturas, entre outras funções, ‘cortam’ o DNA em pontos específicos, permitindo identificar a sequência das bases do código genético, processo conhecido como sequenciamento.

Da descoberta do trio à tecnologia do DNA recombinante foi um pulo. Regulamentada por leis específicas em muitos países, ela é hoje amplamente usada na medicina, na agricultura e na fabricação de produtos industriais – e igualmente contestada, por razões econômicas, sociais e científicas, inclusive.

Um dos 23 laureados pela Academia Real Sueca de Ciências presentes no 61º Encontro de Prêmios Nobel – realizado na semana passada (de 26/6 a 1/7), em Lindau (Alemanha) –, Werner Arber falou dos avanços no entendimento dos processos naturais de variação genética e de como eles possibilitaram o desenvolvimento de técnicas artificiais de alterações no DNA de organismos vivos para fins específicos.

Werner Arber e jovens cientistas em 1990
Werner Arber interage com jovens cientistas no Encontro de Prêmios Nobel de Lindau em 1990. O microbiólogo já participou de mais de 20 edições do evento, cujo objetivo é promover a troca de experiências, ideias e estímulos entre os cientistas mais prestigiosos do mundo e a nova geração de pesquisadores. (foto: divulgação)

Após acompanhar o aperfeiçoamento e disseminação dessas técnicas ao longo dos últimos anos, Arber deseja vê-las agora ajudar a resolver o problema da má nutrição no mundo.

Vale lembrar que a grande maioria dos alimentos geneticamente modificados comercializados hoje é resistente a pragas ou herbicidas – e não alterados para melhorar suas características nutritivas.

Em entrevista coletiva concedida no evento, Arber contou um pouco do que se sabe no momento sobre as estratégias naturais e artificiais de alterações genéticas, ressaltando que ainda há muito a ser descoberto.

O Nobel falou ainda dos riscos envolvidos nessas técnicas, que, a seu ver, são os mesmos riscos associados aos processos naturais de alterações genéticas, e defendeu a participação ativa da sociedade nas decisões relativas à introdução de novas tecnologias. Leia a seguir trechos da entrevista:

Depois da descoberta que o levou ao Nobel, que questões científicas passou a perseguir?

“As técnicas empregadas na engenharia genética são bastante similares às estratégias que ocorrem em seres vivos na natureza desde muito tempo”

Tenho me concentrado nos processos moleculares relacionados à biologia evolutiva desde meados da década de 1970, quando o DNA recombinante foi introduzido e as questões sobre regulamentação e impactos da biotecnologia começaram a ser discutidas na Conferência Asimolar. Na ocasião, defendi que tínhamos que combinar variação genética artificial feita por seres humanos por meio da engenharia genética com o que a natureza tem feito rotineiramente há muitos anos. Isso me levou ao darwinismo molecular, ou seja, à extensão da evolução darwinista para o campo das variações genéticas. Com base na observação de microrganismos e validação em organismos superiores, comparamos sequências genômicas para ver se há estratégias naturais que levam a mudanças ocasionais nas sequências de nucleotídeos no DNA. Sabemos hoje que há três estratégias: alterações locais na sequência de nucleotídeos; recombinações intragenômicas de segmentos de DNA; e aquisição de segmento de DNA exógeno [de outro organismo] por transferência horizontal de genes. Essas alterações são mantidas em grande controle na natureza, de modo a não acontecerem o tempo todo, só muito de vez em quando. Do contrário, não sobreviveríamos, já que a grande maioria das mudanças não é benéfica. As técnicas empregadas na engenharia genética são bastante similares às estratégias que ocorrem em seres vivos na natureza desde muito tempo.

Quais os riscos envolvidos quando esse processo ocorre artificialmente?
Podemos prever que os riscos em longo prazo da engenharia genética são os mesmos riscos da evolução biológica natural, assim como os envolvidos nos cruzamentos clássicos de plantas e animais. Após longos períodos de observação da natureza, podemos dizer que os riscos são pequenos, o que permite que avencemos com abiotecnologia.

Com a descoberta do código genético e depois com o sequenciamento do genoma humano, achou-se que seria encontrada a cura para diversas doenças. Por que isso ainda não aconteceu?
A vida e tudo no nosso mundo são mais complexos do que normalmente presumimos. No momento em que o código genético foi descoberto, alguns cientistas disseram “agora sabemos de tudo”, mas hoje está claro para mim que estavam completamente errados. Aquilo foi apenas o começo. Não sabíamos, por exemplo, que uma série de microrganismos habita o nosso corpo e que eles nos ajudam e nós os ajudamos – ou seja, cooperamos. Isso é algo muito interessante que devemos pesquisar mais e mais. Há tantas perguntas ainda em aberto. É muito bom que os jovens cientistas saibam disso.

DNA
Werner Arber: “No momento em que o código genético foi descoberto, alguns cientistas disseram ‘agora sabemos de tudo’, mas hoje está claro para mim que estavam completamente errados”. (foto: Svilen Milev/ Sxc.hu)

O que o senhor gostaria de ver como resultado dos estudos em genética e evolução biológica?
Para o bem da humanidade, gostaria que avançássemos em nosso conhecimento sobre o funcionamento da vida e, particularmente, da nutrição. Gostaria que soubéssemos qual a melhor dieta para o nosso corpo não ficar doente e se manter nutrido. Hoje, há milhões de crianças mal nutridas, que comem apenas um tipo de alimento, deixando de ingerir vitaminas e outros nutrientes. Se fosse possível, por meio da engenharia genética, desenvolver uma ou duas dúzias de alimentos que contivessem todos os ingredientes importantes para a nossa dieta diária, teríamos uma garantia melhor de que a má nutrição iria desaparecer e que as pessoas poderiam ser mais saudáveis. Seria ótimo se pudéssemos desenvolver alimentos melhores para a população. Felizmente, pelo que eu saiba, o arroz dourado [arroz transgênico rico em pró-vitamina A] será finalmente introduzido nas Filipinas. Espero que a experiência possa então se expandir para outros países em desenvolvimento.

A ciência, em especial a genética, avança de tal maneira que em breve será possível fazer quase tudo manipulando genes. Quais devem ser os limites? Quem decidirá sobre eles? A sociedade deve e está preparada para participar dessas decisões?
Sim, essa é a minha filosofia. Defendo essa ideia e até já escrevi sobre isso. A sociedade civil deve ser corresponsável, junto com os cientistas, economistas e políticos, pela introdução de novas tecnologias, porque elas estão moldando o nosso futuro. Ao moldar o futuro, essas tecnologias podem afetar todos os tipos de vida do nosso planeta, incluindo os seres humanos. Enfim, acho que a corresponsabilidade social no que diz respeito aos rumos da ciência deveria fazer parte da nossa cultura.

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2011/07/imitando-a-natureza/?searchterm=biotecnologia

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