Como escolher uma revista para publicar o seu artigo


Atualmente, há milhares de periódicos científicos no mundo, variando desde os  generalistas que publicam sobre qualquer ciência (como a Science) até os especializados em apenas uma área específica (como o Journal of Animal Ecology). Para expressar em números essa abundância de revistas, consideremos, por exemplo, que há 134 revistas listadas no Journal Citation Reports só na categoria “Ecology”! Diante desse vasto universo bibliográfico, como escolher a revista onde você vai publicar uma descoberta que acabou de fazer?

Essa não é uma tarefa fácil. Contudo, há 10 anos ou mais, publicar não era uma coisa tão complicada quanto hoje. Primeiro, porque havia menos revistas científicas, logo o universo de escolha era bem menor. Segundo, porque não vivíamos a paranóia do Culto Apocalíptico do Fator de Impacto, então escolhíamos a revista principalmente com base no escopo (qual assunto ela foca) e no prestígio (quanto os seus pares a consideram boa). Resumindo, na prática, o que fazíamos era: (1) ler muitos e muitos periódicos, já que achávamos os artigos principalmente em revistas impressas, assinadas por bibliotecas universitárias (no Período Triássico pré-internet); através dessas leituras formávamos a nossa própria opinião sobre o que e como cada revista andava publicando recentemente; (2) conversar com colegas e coletar opiniões sobre o escopo e a qualidade das revistas que eles conheciam e liam, assim como sobre a quantidade de leitores de cada revista e sua amplitude geográfica de distribuição. Com base na avaliação subjetiva desses critérios, decidíamos quais revistas tinham mais a ver com o manuscrito em questão e, dentre elas, quais eram as melhores e em quais dessas o manuscrito teria mais chance de ser aceito. Todos aprendiam que era preciso mandar um manuscrito saído do forno para uma revista que estivesse publicando sobre o mesmo assunto na época, concordasse com a abordagem usada no trabalho (sempre houve brigas entre clubinhos científicos…) e fosse lida pelo maior número possível de pessoas.

Era um trabalho minucioso, baseado no hábito da leitura frequente e em profundidade (perdido hoje na “Era dos Cento e Quarenta Caracteres e das Atividades Multi-Tarefa”) e também na experiência de orientadores e colegas mais velhos. Só que as coisas mudaram e, de 10 anos para cá, entregamos a maioria das boas revistas nas mãos de grandes editoras internacionais e passamos a cultuar cegamente os índices cienciométricos. Desta forma, hoje em dia o fator de impacto se tornou o principal critério usado pela maioria dos cientistas na escolha do veículo de publicação das suas descobertas. Resumidamente, significa dizer que quanto mais citados são os artigos de uma revista, mais atraente ela se torna para os cientistas de uma determinada área. Só que o fator de impacto não é única e nem mesmo a melhor medida da qualidade de uma revista. Há diversos fatores qualitativos que devem ser levados em conta, como o histórico, o viés e a reputação da revista.

Aí você me pergunta: “ok, Marco, sei que as coisas mudaram, mas como então devo escolher uma revista atualmente, nessa época de transição entre culturas acadêmicas?”. Vamos à resposta, mas cuidado: há uma série de coisas a serem levadas em conta e diferentes cientistas põem pesos diferentes em cada uma delas. Portanto, as minhas recomendações não são leis e nem mesmo representam um consenso entre cientistas. Aqui falo da minha própria experiência e do que tem funcionado para mim. No começo, siga os meus e outros conselhos, mas depois monte o seu próprio prato no self-servicebibliográfico. Depois você vai notar que passará a escolher a revista-alvo antes mesmo de escrever o manuscrito (sim, eu escrevo os meus artigos já pensando em para quais revistas vou submetê-los).

Aviso: só considere publicar seu artigo em revistas indexadas em bases de dados renomadas, como Web of Science, Scopus e Scielo, salvo raras exceções (um outro dia escreverei um post sobre a importância de algumas revistas não-indexadas). E não seja tão preguiçoso e ingênuo a ponto de usar ferramentas automatizadas para escolher revistas!

Responda para si mesmo as seguintes perguntas, nesta ordem:

1. Quais revistas publicam artigos sobre o mesmo tema ou sobre temas correlatos do meu manuscrito?

Esta é a pergunta mais importante de todas. Não adianta mandar um manuscrito sobre lofoforados para uma revista de mastozoologia. E muitas vezes as diferenças não são tão óbvias quanto no exemplo anterior: você precisa ser capaz de notar sutis vieses que diferem entre revistas sobre um mesmo tema. Assim, você só vai responder essa pergunta corretamente se for um ávido leitor de literatura científica e, além disso, tiver o costume de associar artigos a revistas. Essa segunda tarefa ocorria automaticamente no passado, mas hoje fazemos buscas bibliográficas em índices online (Web of Science, Scopus, Scielo, Google Scholar etc.), através das quais encontramos listas de artigos de várias fontes. Basta clicar e pegar o PDF direto. Muitos perderam o costume de saber naturalmente qual é o perfil de cada revista e os colegas mais novos nem sequer chegarem a desenvolver esse feeling. Tente resgatar essa arte. Assine RSS, Twitter, TOC por e-mail, Facebook e alertas em geral criados por vários revistas e crie o hábito de prestar atenção as mensagens subliminares deles. Assim, você vai reconhecer que cada revista tem preferências por determinados assuntos e abordagens; há diferenças de escopo mesmo entre as revistas mais gerais de Ecologia, como a Oikos e a Ecology.

2. Dentre as revistas que têm a ver com o meu manuscrito, de quais eu gosto mais?

Este pode parecer um critério altamente subjetivo. E de fato ele é mesmo! A gente não escolhe revistas apenas com base em critérios objetivos ou quantitativos. Isso é uma ilusão criada por seitas cienciométricas. O segundo critério que eu uso para escolher uma revista é o quanto eu gosto dela: ou seja, o quanto os trabalhos que ela publica tem me ajudado a descobrir as fronteiras do conhecimento no meu tema de interesse. Procuro sempre publicar nas revistas que admiro, independente de estarem na moda ou no topo dos rankings cienciométricos.

3. Qual é a reputação de cada revista?

Faça como antigamente. Leia muito e converse com os seus colegas. Com um pouco de experiência na área, você vai saber quais revistas são consideradas melhores ou piores pelos seus pares, com base em critérios melhores do que meramente o fator de impacto. Considere também a sua própria opinião: em quais revistas saem mais artigos que despertam o seu interesse?

4. Qual é o rigor de cada uma dessas revistas que passaram pelos três primeiros filtros?

Hoje em dia, por causa da crise na publicação científica que vivemos, as melhores revistas encontram-se completamente engarrafadas, com muito mais submissões do que são capazes de processar e, que dirá, publicar (tudo bem que esse problema poderia ser resolvido acabando-se com o arcaico sistema de volumes e números, e publicando-se apenas em fluxo contínuo e online, mas fazer o que…). Assim, os editores-chefe, editores de área e editores de recebimento tornaram-se ultra-rigorosos. Na verdade, alguns tornaram-se arrogantes mesmo, pois têm o torresmo e a pinga na mão. O fato é que eles procuram pêlo em ovo, no afã de rejeitarem rápido vários artigos e, assim, fazerem a fila andar. Antigamente, era possível argumentar com o editor, caso você não concordasse com a rejeição de um artigo; se os seus argumentos fossem convincentes, você poderia até mesmo mudar o jogo. Mas, hoje, alguns editores estrelinhas ficam ofendidinhos quando alguém questiona suas sábias decisões imutáveis… Bom, então considere o nível de rigor ou petulância de cada revista, com base na sua experiência e na dos seus colegas, na hora de escolher para onde vai mandar o seu manuscrito, a fim de não perder tempo ou se estressar à toa. Às vezes, vale mais a pena publicar numa revista igualmente boa, mas não tão top; pense bem.

5. Quais dessas revistas são pagas e quais são 0800?

Se você for um dos sortudos que estudam ou trabalham em uma universidade pública que banca as suas publicações, pule para o conselho 6. Se não for, confira o seu bolso. Desde sempre houve revistas pagas e revistas gratuitas. Ou seja, em algumas revistas o autor sempre precisou pagar pela publicação. Podia ser tornando-se membro da sociedade científica que edita a revista ou pagando avulso por página impressa. O problema é que, hoje em dia, a maioria das revistas está nas mãos de grandes editoras internacionais, que cobram preços exorbitantes pela publicação e, como se não bastasse, ainda restringem o acesso aos PDFs apenas aos assinantes da revista: ou seja, cobram nas duas pontas! E essas editores nem sequer pagam pelo trabalho dos revisores e editores; isso sem contar que elas também não geram o conteúdo científico dos artigos, que vem de pesquisas financiadas com verbas públicas na maioria dos casos. Por outro lado, há também revistas comerciais, mas open acess, que cobram do autor, mas não do leitor, criando um sistema mais justo; só que mesmo elas cobram caro demais, tendo margens de lucro obscenas. Sendo assim, não adianta mandar o seu manuscrito para uma revista que lhe arrancará os olhos da cara, se você não tiver grana para pagar as page charges. Contudo, algumas revistas, especialmente as open access, costumam dar waivers, ou seja, descontos para pesquisadores de países subdesenvolvidos. O Brasil costuma se enquadrar nessa categoria, mesmo sendo a sexta economia do mundo, porque é notório que a maioria das universidades por aqui não destina recursos para publicações. Sendo assim, arrisque pedir um waiver, pois quem não chora, não mama.

6. Depois de todas essas peneiras sucessivas, qual é o fator de impacto das revistas que sobraram?

Sim, infelizmente, concordando ou não com essa história de fator de impacto, você precisa levar essa famigerada métrica em conta hoje em dia. Programas de pós-graduação, agências de fomento, universidades, centros de pesquisa e outras instituições acadêmicas brasileiras usam o fator de impacto, na verdade uma métrica da revista, para avaliar a qualidade individual de cada cientista. Não, isso não faz o menor sentido, mas virou moda fazer avaliações baseadas no Índice Qualis da CAPES, que por sua vez é parcialmente baseado no fator de impacto medido pelo Journal Citation Reports. Logo, se você for um aluno de pós-graduação brasileiro, deverá ter pelo menos um ou dois artigos na categoria Qualis B1, e de preferência A2 ou A1, se quiser ter alguma chance de concorrer a uma bolsa de pós-doutorado ou a um emprego temporário ou permanente como professor universitário ou pesquisador. Infelizmente, não apenas a qualidade de vida, mas também a qualidade cienciométrica, começam com “Qualis” hoje em dia… (o pessoal dos anos 80 vai entender a piada, rs).

7. Conselhos finais

Nada ajuda mais a escolher bem uma revista do que ler, ler e ler. E ouvir os conselhos dos seus pares, é claro. Tenha um pouco mais de personalidade do que a maioria dos seus colegas e evite se basear apenas nas modinhas derivadas do culto ao fator de impacto. Por fim, não se frustre caso o seu artigo seja rejeitado na primeira tentativa, por mais que você tenha caprichado na pesquisa, na redação e na seleção da revista. O mundo científico anda competitivo demais, a publicação científica está em crise e é normal ter que submeter um mesmo manuscrito a três ou mais revistas boas antes de conseguir que ele seja aceito.

Fonte: http://marcoarmello.wordpress.com/2013/05/08/como-escolher-uma-revista-para-publicar-o-seu-artigo/#more-884

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