Faça mais coisas “como menina”


Eu sou mulher. Passei a vida toda com esse peso nas costas: faço tudo como menina. Não tenho escolha, é o que sou. Eu corro como menina, ando como menina, jogo bola como menina, estudo como menina, ganho empregos como menina e transo como menina. Mas sabe quando alguém diz: faça tal coisa como menina e todo mundo faz essa tal coisa como se fosse um idiota? Isso nunca pareceu com a maneira que eu me vejo. E acho que também não parece com a maneira que milhares de meninas e mulheres se veem.

A campanha da Always – sim, a marca de absorvente – fala sobre isso. O vídeo abaixo é em inglês e ainda não há nenhuma versão legendada, então vou explicar por cima: a diretora pede para que as pessoas corram, lutem e arremessem “como meninas”. Depois, chegam as meninas novinhas, que ainda não estão contaminadas com as bobeiras do mundo e mostram que “como uma garota” pode ser incrível. Quando a diretora pergunta se ao interpretar o “como uma garota” eles estão ofendendo as mulheres, rola um susto. A gente nem pensa nisso…

E a gente não pensa nisso porque sempre nos disseram que nós não podíamos fazer certas coisas. Garotas precisam se preocupar em sentar bonitinha com o vestido, não com a lição de matemática. Garotas precisam manter-se limpas e não jogar bem futebol – ou qualquer esporte que não seja balé, ginástica olímpica ou vôlei. Garotas precisam arrumar um namorado, não conhecer pessoas interessantes sem nenhum interesse. Todo o resto do mundo é para os meninos.

Os meninos aprendem o mesmo e acham que nunca vão competir com garotas, afinal, elas têm outras preocupações e a maior dela é agrada-los. Quando chega na vida adulta as coisas não são nada assim. Mulheres disputam cargos com homens e dizem não às suas investidas. E aí todos nós sabemos o que acontecem: frustração.

Frustração feminina por ter a mesma formação acadêmica, fazer o mesmo trabalho e ganhar menos. Frustração masculina por ter que competir com mulheres, sem notar que algumas são ainda mais competentes do que eles. Frustração de ambos porque os relacionamentos se tornam complicados – eles foram ensinados que elas deveriam estar à disposição e elas passaram a ignorar há muito tempo que se dar bem com o sexo oposto é um indicativo de sucesso – ou ainda se cobram por isso, mas têm outras prioridades.

Fazer coisas como menina é fazer as coisas bem, é ser você mesma, é acreditar em você, respeitar quem é e quem gostaria de se tornar. Fazer coisas como menina não é um xingamento. Perder para uma menina também não. Fazer coisas como um ser-humano, perder ou ganhar de um ser-humano. O “vira homem” usado com os meninos é tão perverso quanto o “como menina” e precisa, de verdade, ser abolido.

Somos muito melhores do que essa divisão por gênero quer que acreditemos. Temos muito mais coisas em comum do que diferenças. Vamos fazer mais coisas como meninas. Vamos ignorar mais os “vira homem”. E vamos acabar com essa desigualdade que querem, de toda forma, que a gente leve para o futuro.

Fonte: https://br.mulher.yahoo.com/blogs/preliminares/fa%C3%A7a-mais-coisas-como-menina-094057961.html

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