AIDS e adolescência: no mundo e no Brasil


Unicef alerta: mortes por aids entre adolescentes mais que dobraram desde 2000

Texto: Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil

Desde o ano 2000, mortes relacionadas à aids mais do que duplicaram entre adolescentes em todo o mundo. A estimativa é que, a cada hora, 29 pessoas de 15 a 19 anos sejam infectadas pelo HIV, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Os números, apresentados durante a 21ª Conferência Internacional sobre Aids, revelam que a doença segue como a segunda causa de morte entre jovens na faixa etária de 10 a 19 anos.

De acordo com o relatório, meninas são mais vulneráveis à epidemia de Aids, representando cerca de 65% das novas infecções em adolescentes no mundo. Na África Subsaariana, região onde estão aproximadamente 70% das pessoas que vivem com HIV no planeta, três em cada quatro adolescentes infectados em 2015 eram meninas.

O medo de passar pelo exame, segundo o Unicef, faz com que muitos jovens não tenham conhecimento de sua situação – apenas 13% das meninas e 9% dos rapazes foram testados no último ano. Pesquisa conduzida pelo próprio fundo das Nações Unidas em 16 países constatou que 68% dos 52 mil jovens entrevistados não querem fazer o exame por medo de um resultado positivo e por preocupação com estigma social.
“Depois de tantas vidas salvas e melhor cuidadas graças à prevenção, tratamento e cuidado; depois de todas as batalhas ganhas contra o preconceito e a ignorância relacionados à doença; depois de todos os maravilhosos marcos alcançados, a Aids permanece como a segunda causa de morte entre jovens de 10 a 19 anos em todo o mundo – e causa número um na África”, destacou o diretor-executivo do Unicef, Anthony Lake.

Prevenção contra a AIDS diminuiu no Brasil

Cada vez mais, vê-se a sexualidade aflorando na população de forma mais precoce e menos protegida, fazendo que ela relaxe quanto à prevenção

Texto: Romulo Osthues / Foto: Shutterstock / Fontes: (gráfico) Boletim Epidemiológico, Ministério da Saúde (2013); Periódico The Lancet (Inglaterra) / Adaptação: Clara Ribeiro

A mortalidade diminuiu. Quem morre com HIV são aquelas que param de tomar remédio ou que não sabiam que tinham a doença. Foto: Shutterstock

O número de camisinhas distribuídas pelo Ministério da Saúde em 2013 foi 625 milhões. Segundo o órgão, o Brasil é o campeão em campanhas desse tipo no mundo. O investimento é apenas uma das estratégias para não se perder a batalha contra o vírus HIV. Em 2012, foram registradas 39.185 pessoas infectadas, correspondendo a 20,2 casos para cada 100 mil habitantes, número que se mantém estável nos últimos cinco anos. A estimativa é a de que 718 mil indivíduos vivam com a doença em todo o território nacional.

Com base nesse panorama, uma pergunta é necessária: se 80% dos casos de infecção têm origem emrelações sexuais, por que, então, a população não se conscientiza de uma vez de que a prevenção é fundamental? “Uma razão é saber que há tratamento eficaz. Não se tem mais medo da síndrome. As pessoas baixaram a guarda e não estão se prevenindo”, responde Fernando Ferry, médico especialista em HIV/AIDS, professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) e do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle (RJ) – centro de referência no assunto. Com medo de obter o diagnóstico positivo, a maioria acaba descobrindo a doença já nos leitos. “Elas estão morrendo no hospital e isso não aparece na mídia. Os óbitos estão diluídos. Por ano, morrem cerca de 12 mil pessoas”, ressalta o médico.

Efeito salva-vidas

Por outro lado, salvar vidas é um dos melhores resultados da ampliação do tratamento e das campanhas de testagem. No País, as mortes por HIV diminuíram de 17 mil em 1996 para 10 mil em 2013. Entre 2000 e 2013, essas mortes caíram mais rapidamente que a média global por ano, que é de 1,5%. Quaisquer pessoas HIV positivas podem se submeter ao tratamento disponibilizado pelo governo federal, independentemente se seu sistema imunológico está ou não comprometido.

A ideia é que esse protocolo, iniciado em dezembro de 2013, faça que mais pessoas possam aderir ao tratamento: uma pílula contendo três fármacos distintas (tenofovir, lamivudina e efavirenz) que o indivíduo deve tomar uma vez ao dia antes de dormir. Por ela reduzir a carga viral do soropositivo, o risco de transmissão chega a ser 96% menor – o que favorecerá o controle da pandemia. “A pílula única é potente e apresenta baixa quantidade de efeitos colaterais, fazendo queo tratamento seja otimizado e fácil. O paciente não vai morrer de AIDS, mas de qualquer outra coisa”, pontua o pesquisador, que concedeu a entrevista a seguir à VivaSaúde.

O tratamento com a pílula única traz uma boa qualidade de vida?
Isso é relativo. Há a questão dos efeitos colaterais (ainda que diminuídos), a necessidade de sempre se fazerem exames, além das implicações psicológicas em relação à própria infecção. Mas, com o tratamento, você transforma a condição em doença crônica e as pessoas passam a lidar com ela como se tivessem diabetes, por exemplo. Por outro lado, essa noção faz que elas não se protejam, principalmente homens homossexuais jovens, por não encontrarem suporte em suas famílias quanto à aceitação de sua orientação e perderem a chance de conversar. Assim, o sexo é tratado como tabu e assunto proibido. O resultado é a falta de informação do jovem, que acaba não se protegendo adequadamente.

Por que os jovens ainda estão muito expostos?
Cada vez mais, vê-se a sexualidade aflorando na população de forma mais precoce e menos protegida, fazendo que ela relaxe quanto à prevenção. O que é mais preocupante é o crescimento da infecção entre os 13 a 25 anos. São dois fatores que os levam a isso: falta de educação sexual e busca pelo prazer imediato, inconsequente, sem preservativos – muitas vezes, associada ao consumo de drogas e álcool. Fora isso, não existe a procura por saber sobre si próprios, evitando-se os exames. Temos visto meninos de 20 anos de idade chegando ao hospital em estágio avançadíssimo da doença e que, possivelmente, se contaminaram aos 13.

Então, educação sexual é urgente? 
Educação sexual na escola seria essencial, com programas de capacitação de professores de acordo com a realidade local, envolvendo não somente as crianças, mas também as famílias nesse assunto. é promover um aprendizado técnico para todo mundo, permitindo que se entenda que há outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), sendo necessário se proteger delas da mesma maneira.

Sem isso, como proteger-se?
O indivíduo tem direito a se comportar sexualmente da forma como quiser; não devemos discriminar ninguém. Se achar que pode sair com várias pessoas, é uma decisão dele. Isso não tem nada a ver com o contágio da doença. Caso a pessoa se proteja, ela não se contaminará. não se precaver e ter um grande número de parceiros leva ao contágio.

Quais são os estigmas comuns?
A primeira coisa é o medo de revelar para a família. Depois, eles têm a ideia de que morrerão por um resfriado comum. Em terceiro lugar, a culpa de terem tido consciência da existência da doença e de que vacilaram na hora da proteção, sofrendo muito com isso. Outra questão é em relação a futuros parceiros, perguntando-se como conseguir estabelecer relações afetivas com outras pessoas daquele momento em diante.

O uso da camisinha é fundamental. Isso não somente em relação a ele transmitir o HIV para alguém, mas a ele se contaminar com outras DSTs. Quando o soropositivo toma remédio, sua carga viral fica muito baixa, o que diminui ainda mais as chances de ele transmitir o vírus – estudos mostram que a possibilidade de infectar outra pessoa cai para 4%. Mas nada é garantido. Por isso, o paciente soropositivo que sabe de sua condição tem de informar ao parceiro sobre o assunto e permitir a ele tomar a decisão a respeito do que fará. A maioria aceita continuar o relacionamento quando gosta do outro. E se protege sempre.

A cura bate à porta?
Já existe um paciente curado no mundo. Seu nome é Timothy Brown, conhecido como o “paciente de Berlim”. Ele já era soropositivo quando desenvolveu uma leucemia. Precisava fazer um transplante de medula e conseguiram a de um doador resistente ao HIV. Ao receber essa medula nova, ficou curado. Isso abriu perspectivas para novas abordagens e muitas pesquisas estão em curso. Porém, novas tentativas de repetir esse feito falharam! A cura virá porque a capacidade do ser humano de estudar e de gerar conhecimento está muito avançada. Os estudos científicos estão no campo da descrição dos mecanismos das moléculas, dos bloqueios para que percam suas funções. Essa será a tônica da medicina no futuro. A cura do ebola, por exemplo, está na biologia molecular avançada. A gente espera que isso aconteça com oHIV/AIDS também; sou muito esperançoso. Talvez, a cura demore de 15 a 20 anos para acontecer.

Quem está à frente nesse setor?
O país mais desenvolvido nesse sentido é os EUA. As universidades de lá premiam a competência de seus pesquisadores, e eles trabalham associados à indústria. Esses trabalhos aos quais se dedicam com muito fervor representam bilhões de dólares.

Fontes:

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