Bioespeleologia


Análise geral da bioespeleologia do carste sergipano

Sobre a fauna e flora dos carstes é importante enfatizar que cada caverna é única no que diz respeito à diversidade e quantidade, devido a características como localização, dimensão, morfologia interna, umidade e temperatura. As características biológicas são dinâmicas e quanto mais próxima do meio externo, a zona cavernícola torna-se mais influenciada pelas condições ambientais externas.

Nas regiões mais profundas, onde ocorre completa ausência de luz, a presença de plantas verdes resume-se, no máximo, a alguns poucos exemplares que ali se encontram pela dispersão de sementes feita por morcegos. Estas não crescem muito (chegam a cerca de 10 cm no máximo) e logo morrem por não conseguirem fazer fotossíntese, devido à ausência de luz. Porém, a presença vegetal mais importante não tem influência direta na fauna cavernícola, que são as raízes de grandes árvores que penetram por fendas situadas nos tetos. Estas acidificam o solo, aumentam a capacidade de fragmentação das rochas e contribuem para a formação dessas cavidades subterrâneas.

As cavidades subterrâneas de Sergipe possuem temperatura muito peculiar, normalmente a possuindo mais elevada que a externa. Essa característica interfere diretamente na fauna e flora que compõem e se distribuem através das grutas. Em Simão Dias, as cavernas já conhecidas também possuem essa mesma propriedade.

Ao que tinge a classificação ecológica dos animais cavernícolas, Lino (2001) adota a que classifica os animais de cavernas em acidentais, troglóxenos, troglófilos e troglóbios.

Os acidentais são os que fazem parte da fauna externa e não possuem nenhum vínculo com esse ambiente, mas podem ser encontrados devido a uma fuga de predadores, por serem carregados através da correnteza, ou mesmo por terem caído de abismos. Como exemplos em Sergipe poderíamos citar cachorros e borboletas.

Os troglóxenos são animais de presença temporária em cavernas, não exclusivos desses ambientes, assim não são capazes de completar seu ciclo vital restritamente nele. Em Sergipe temos os morcegos, sapos, cobras e abelhas.

Os troglófilos não são exclusivamente cavernícolas, mas possuem a capacidade de desenvolver todo seu ciclo de vida nele, sem prejuízo para a manutenção da espécie. No cárste sergipano possuimos aranhas, pseudoescorpiões, baratas, quilópodes e ácaros.

Já os troglóbios possuem morfologia, fisiologia e comportamento estritamente adequados ao ambiente subterrâneo, completando todo seu ciclo de vida nesse ambiente. Muitos exemplares dessa fauna são desprovidos de pigmento e possuem atrofia ocular, contudo essas não são características obrigatórias para serem classificados como tais. Exemplos interessantes são peixes e crustáceos, porém, aqui em Sergipe são ínfimos os registrados de estudos dessa fauna específica. Dessa forma, um trabalho científico que aborde esse tipo de pesquisa será pioneiro e muito importante para conhecer e identificar essa parcela muito importante da cavidade cavernícola.

Em relação às classes do reino animal, ainda de acordo com Lino (2001), os mamíferos e as aves são geralmente troglóxenos, devido à necessidade de se alimentarem constantemente para manter o alto metabolismo e temperatura do corpo. Os répteis e anfíbios, pecilotermos, por não precisarem de muito alimento, mesmo quando acidentais suportam viver nesses ambientes por períodos relativamente longos. Os peixes e os artrópodes, devido a características metabólicas, são os mais capacitados para habitar os ambientes cavernícolas e, por sua vez, são os mais bem representados e formam a maioria dos representantes da fauna troglóbia.

Por sua vez, a vegetação, quando presente, é mais abundante nas regiões onde ocorre a incidência de luz, servindo muitas como fonte de alimento para alguns animais que habitam essas regiões, como pequenos roedores. Nos locais onde a falta de luz é permanente a flora é quase inexiste. Assim, em analogia com a fauna, a vegetação pode ser classificada como troglóxena ou troglófila, todavia nunca troglóbia.

Nas regiões sem incidência de luz além de exemplares da fauna troglóbia e alguns poucos da troglófila e troglóxena, encontramos muitos exemplares de algas, liquens, actinomicetos, além de fungos e bactérias que muitas vezes estão vinculados ao guano (fezes de morcegos).

Além da fauna e flora atuais, podemos encontrar também vestígios fósseis de animais pré-históricos que faziam parte da comunidade cavernícola no passado. De tal modo, podemos entender como era a comunidade, e mesmo o ecossistema da caverna em períodos anteriores.

Esses fósseis (que são restos, vestígios ou mesmo evidências da existência de animais ou vegetais com mais de onze mil anos) podem ser encontrados preservados nas cavernas através de vários processos.Um deles é a mumificação, a qual pode ocorrer em cavernas que possuem a umidade relativa do ar muito baixa e um tipo de solo, como argila seca, que ajuda a absorver qualquer umidade do ar em excesso. Esse tipo de preservação dar-se-ia através da desidratação dos corpos dos animais mortos. Podemos ainda encontrar fósseis incrustados, ou seja, preservados pela deposição progressiva de minerais sobre a peça, o que a protegeria. Essa forma de processo ocorre principalmente em grutas de calcário com clima quente e úmido (Cartelle, 1994).

Em Simão Dias temos como exemplo de potencial fóssil a ocorrência de Geochelone (Reptilia – Testudinidae) no Abismo de Simão Dias (Leão, 2003), o que torna essa província uma área potencial fossilífera.

Preparada para entrar na Gruta da Pedra Branca
Preparada para entrar na Gruta da Pedra Branca

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Video de exploração da Caverna Toca da Boa Vista – Bahia

Expedição espeleológica do nordeste

Conheça os morcegos e ajude a protegê-los

9 opiniões sobre “Bioespeleologia”

  1. olá acabei d conhecer seu blog e adorei continue nessa caminhada ai pela espeleologia em Sergipe nossas cavernas precisam d atenção

  2. Gostei muito do vídeo conheça os morcegos pois, tenho muito medo apesar de saber que eles são necessários para n coisas..PS:As cavernas de Sergipe possuem morcegos que se alimentam de sangue?

    1. Oi Grasiella!
      Que bom que gostou do vídeo! Fico feliz!!!
      Bem…das + de 1000 espécies existentes de morcegos apenas 3 tomam sangue. 2 dessas espécies só de aves e apenas 1 entre elas tomam de aves/mamíferos.
      Em Sergipe algumas cavernas apresentam sim os ditos morcegos hematófagos (que tomam sangue), de 2 espécies diferentes, incluindo a que toma sangue de mamíferos. Como nós humanos somos mamíferos eles poderiam sim tomar nosso sangue, mas apenas em último caso, pois eles normalmente se alimentam de animais silvestres ou de criação (boi, porco,…). Somente em um estado de grande desequilíbrio ambiental eles tomariam sangue humano, já que para se manter vivo eles precisam se alimentar em no máximo 48h, pois a digestão do sangue é muito rápida e essa alimentação possui nutrientes em pequena quantidade tendo sempre que ser repetida em pequenos intervalos.
      É isso…qualquer coisa é só perguntar mais!
      Beijos,
      Christiane Donato

  3. Oi Cristiane gostaria de saber em qual ponto da Serra de Itabaiana fica a Casa de Pedra

    Gosto bastante de visitá-las

    Tive o prazer de visitar a Toca da Boa Vista em Campo Formoso na Bahia, a Gruta do Maquiné em MG, a Casa de Pedra em Iporanga, Gruta Santana, Caverna do Diabo em Eldorado, todas em São Paulo e algumas outras.

    1. Olá Mano! A Gruta do Encantado Fica em um dos paredões da Serra de Itabaiana…seguindo o Riacho dos Negros. O acesso leva pelo menos 1 dia de trilha e não é muito fácil…indico que entre em contato com o pessoal do IBAMA que fica na sede do parque para obter mais detalhes…ok? Ah! E a Casa de Pedra fica em Itabaiana, mas não na Serra e sim no Povoado Ribeira.
      Abraço,
      Christiane Donato

    1. Rsrsrs…
      Tem muuuuita coisa para se conhecer e discutir sobre as cavernas brasileiras!
      Há espaço para todos os interessados: seja para pesquisar, praticar esportivamente, visitar…

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