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Divulgação – ESEB/SICEA Nordeste 2016


VII Encontro Sergipano de Educação Básica (ESEB) e I Seminário dos Institutos, Colégios e Escolas de Aplicação (SICEA) - Regional Nordeste
VII Encontro Sergipano de Educação Básica (ESEB) e I Seminário dos Institutos, Colégios e Escolas de Aplicação (SICEA) – Regional Nordeste
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Pesquisa mostra que não há mais lugares “intocados” na Terra – e já faz tempo


É bastante claro que a sociedade humana tem deixado uma impressão irreversível sobre o ambiente natural em torno de nós. Nosso impacto no planeta pode até mesmo ser qualificado como uma nova época geológica – mas certamente se você viajar longe o suficiente em busca de um oásis intocado e puro, você poderia ainda encontrar um santuário natural na Terra ainda não tocado pelas mãos da humanidade, não é mesmo?

Não. Pelo menos, não de acordo com um novo estudo, que vasculhou décadas de dados arqueológicos e constatou que não existem restantes lugares intocados da Terra que não sejam afetados pela sociedade e atividade humanas, e provavelmente não exista um em milhares de anos.

A arqueóloga Nicole Boivin, da Universidade de Oxford e do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, na Alemanha, juntamente com colegas pesquisadores, examinou 30 anos de estudos arqueológicos e observou novos conjuntos de dados sobre DNA e microfósseis antigos, assim como modelos estatísticos.

Sua conclusão é que o impacto da humanidade no planeta não se iniciou com as enormes mudanças tecnológicas e sociais da Revolução Industrial, mas foi, na verdade, observável muitos milhares de anos antes no final do período Pleistoceno, sob a forma de extinção de espécies ligada ao crescimento da população humana, que remonta 195.000 anos no passado.

Extinções são a pista

Os pesquisadores dizem que o exemplo mais significativo disso é a redução dramática na megafauna (espécies animais grandes) entre cerca de 50.000 e 10.000 anos atrás, o que teve efeitos dramáticos sobre os ecossistemas em termos de coisas como a dispersão de sementes.

O advento da agricultura colocou ainda maiores pressões evolucionárias em plantas e animais, criando “impactos sem precedentes e duradouros sobre a distribuição das espécies”. Mas esses impactos não apenas conduziram a extinções. Os tipos de animais que os seres humanos favoreceram – como cães domesticados, além de ovelhas, cabras, galinhas e gado – aumentaram em quantidade.

Os seres humanos também colonizaram as ilhas, o que teve grandes efeitos considerando como ecossistemas naturais das ilhas não têm “a resiliência dos biomas continentais”. À medida que novas espécies foram introduzidas, os indígenas foram dominados. A expansão do comércio da Idade do Bronze em diante agravou muitos destes efeitos, e tudo isso muito antes da Revolução Industrial ter início.

Em outras palavras, ao simplesmente colonizar novas terras e criar animais que queríamos para comer, tivemos um impacto sobre cada parte do planeta.

Pensando no futuro

Os pesquisadores dizem que a descoberta deste impacto ambiental humano a longo prazo significa que devemos ter uma abordagem mais ampla e mais pragmática para os esforços de conservação – como claramente está em nossa natureza alterar a natureza, vamos precisar planejar adequadamente se quisermos realisticamente ajudar a salvar o planeta de ameaças ambientais.

“A evidência arqueológica é fundamental para identificar e compreender a história profunda dos efeitos humanos”, explica Boivin.

“Se queremos melhorar a nossa compreensão de como gerimos o nosso meio ambiente e conservar as espécies hoje, talvez nós tenhamos que mudar nossa perspectiva, pensar mais sobre como proteger o ar puro e a água potável para as gerações futuras e um pouco menos sobre o retorno do planeta Terra para sua condição original”.

De acordo com os pesquisadores, esta “condição original” da Terra é algo que não existe há milhares de anos, por isso, devemos focar no bem que podemos fazer para o planeta como ele é agora, em vez de tentar restaurar um oásis há muito tempo perdido, que só existe agora na nossa imaginação.

“Ao invés de um retorno impossível a condições imaculadas, o que é necessário é a gestão historicamente informada de novos ecossistemas emergentes para assegurar a manutenção de produtos e serviços ecológicos”, afirmam os autores. “Tais esforços precisam ter em conta as necessidades de todas as partes interessadas e equilibrar os meios de subsistência locais com a agenda dos países do primeiro mundo”.

“Dados arqueológicos cumulativos demonstram claramente que os seres humanos são mais do que capazes de remodelar e transformar radicalmente os ecossistemas”, acrescenta Boivin. “Agora, a questão é que tipo de ecossistemas iremos criar para o futuro. Será que eles vão apoiar o nosso próprio bem-estar e de outras espécies ou eles vão fornecer um contexto para novas extinções em grande escala e alterações climáticas irreversíveis?”. Essa parece ser uma pergunta que merece uma boa resposta.

Texto acima de divulgação do artigo: http://hypescience.com/lugares-intocados-terra/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+feedburner%2Fxgpv+%28HypeScience%29

Imagem: http://www.sciencealert.com/it-s-official-there-are-no-more-untouched-places-left-on-earth

Para ler o artigo na íntegra: http://www.pnas.org/content/113/23/6388.full.pdf

Divulgação de artigos prodozidos por alunas do CODAP publicados em periódico indexado


Olá pessoal!

Com alegria, gostaria de divulgar a nova publicação da “Revista Feira de Ciências e Cultura” contendo os relatórios selecionados do CIENART 2015. A revista está disponível em meio digital e possui, também, artigos construídos por alunos do CODAP com a orientação de professores da casa. Essa é uma oportunidade de estimular a participação na iniciação científica de alunos do Ensino Básico e valorizar suas construções de conhecimentos. Os relatórios/artigos são resultados de pesquisas com temas escolhidos pelas próprias alunas envolvidas e executadas por elas durante o 1º e o 2º ano do Ensino Médio.
Segue abaixo os links de divulgação e informações sobre os artigos publicados:
O arquivo da revista está disponível no link:
e em nossa página no Facebook. Curtam e compartilhem com seus alunos e colegas:
 Informações sobre os artigos dos alunos do CODAP:
  • Em A visão dos alunos da UFS sobre sustentabilidade: conceitos, atitudes e práticas, a equipe formada por Christiane Ramos Donato (Professora Coordenadora), Rany Raissa dos Santos Cruz, Mariana Assunção Ralim Santos e Ingryd Karolyne Calixto Cavalcante, do Colégio de Aplicação, objetivou avaliar os conhecimentos dos alunos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) sobre a sustentabilidade, a fim de garantir o conhecimento necessário para ocasionar uma transformação social destinada ao crescimento da sociedade sem causar tantos impactos na natureza.
  • Entender o motivo da instabilidade do humor na sociedade jovem e em particular nos alunos do ensino fundamental e médio do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (UFS) é um dos objetivos do projeto Efeitos dos hormônios na adolescência: como os hormônios podem interferir no humor dos adolescentes, desenvolvido pela equipe formada por Christiane Ramos Donato (Professora Coordenadora), Thais Barros Gonzalez Cordeiro, Rany Raissa dos Santos Cruz, Mariana Assunção Ralim Santos, Ingryd Karolyne Calixto Cavalcante, Mylena Santos Rocha e Danielle Maria de Oliveira Dantas. Os hormônios podem modificar, física e mentalmente, a estrutura do adolescente, resultado que pode ser fundamental para o estabelecimento de um grau de relacionamento produtivo para os alunos, seus familiares, o colégio e a comunidade em que se inserem.

Exposição Veredas da Terra – sobre cavernas


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CARTA CONVITE

Prezado(a),

O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe (CODAP/UFS) e Grupo de Pesquisa Seminalis – CNPq/UFS convidam todos para prestigiar a exposição “Veredas da Terra”. O objetivo geral dessa exposição é divulgar a Espeleologia (Ciência que estuda as cavernas), utilizando como exemplo as cavernas sergipanas.
A abertura da exposição será dia 20 de janeiro, às 16h, e poderá ser visitada até 14 de março no Hall de entrada da Biblioteca Central – BICEN/UFS.

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Horários de visitação:
Segunda a sexta: 07h – 22h
Sábado: 08h – 13h

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A escola interessada em participar da visita com monitoria deverá agendar pelo e-mail: christianecrd@yahoo.com.br. A exposição está direcionada para crianças, jovens e adultos e as explicações serão pedagogicamente adaptadas de acordo com a faixa etária e o nível de escolaridade. As visitas poderão ocorrer às segundas, terças e sextas, nos turnos da manhã, tarde e noite. Para maiores esclarecimentos: 2105-6931.

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A exposição é composta por ambientes e recursos de aprendizagem. A organização dos itens expostos cria a ambiência mista de Museu de História Natural e Galeria de Artes.

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A exposição é um resultado social da tese “Memória Espeleológica: dinâmica ambiental e conservação” vinculada ao programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFS e apresenta produtos de projetos de: (1) Ensino – realizado com os alunos do 3º ano do CODAP/UFS (Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe); (2) Extensão – Maquete de caverna 3D inclusiva (financiada pela FAPITEC – Edital FAPITEC/SE/FUNTEC/CNPq nº 02/2015 – Olimpíadas e Popularização da Ciência), Intercâmbio de práticas pedagógicas interescolares (CODAP/UFS – C.E.G. Roberto Santos) e História da Matemática (coordenado pela professora Silvânia da Silva Costa); e (3) Pesquisa – trabalhos realizados por docentes e discentes do PRODEMA/UFS, do DAGEO/UFS (Grupo de Pesquisa em Dinâmica Ambiental e Geomorfologia) e LBC/UFS (Laboratório de Biologia da Conservação).

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A Espeleologia é a ciência que estuda as cavernas, sua gênese e evolução, passando pela compreensão do seu ambiente físico, químico e biológico, assim como também dos meios e técnicas que são inerentes ao seu estudo. Essa ciência tem base metodológica e teórica interdisciplinar, uma vez que todos os aspectos relacionados ao ambiente interno e externo às cavernas são analisados.

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A finalidade de elaborar uma exposição temporária com um tema regional, em que os visitantes podem interagir com o que está exposto deve-se à valorização da aprendizagem significativa, a qual tem como princípio que o indivíduo para aprender verdadeiramente precisa que o conteúdo seja o mais próximo de sua realidade. Assim são associadas afetividade, estética e interatividade para auxiliar nessa contextualização.

 

A ciência brasileira está em crise e a culpa é dos cientistas


Desculpe fugir do esporte nacional de culpar o governo e nos responsabilizar por essa, mas me acompanhe.

O coração serve para conquistar o seu e o de quem financiou a missão.

 

Não é novidade que estamos em uma crise financeira das bravas. E a ciência foi pega pelo colarinho nessa, agências de pesquisa com verba cortada, universidades sem financiamento, etc. Nos corredores da USP – não sei das universidades fora de São Paulo, mas imagino que não seja melhor – o clima é de derrota. Bolsas de pesquisa novas não saem, bolsas já concedidas aos departamentos não são renovadas e os projetos de pesquisa, se aprovados, só com sérias restrições orçamentárias. Isso enquanto o dólar dispara do outro lado, fazendo com que cada meio real aprovado valha menos. Imagine que uma demora de alguns dias de uma cotação de equipamento são o suficiente para inviabilizar uma compra que não era opcional. Isso quando o dinheiro vem.

Pelo menos, ainda estamos na fase da derrota, não do desespero. Ainda. O desespero vem quando o maior número de doutores já formado se deparar com um mercado de trabalho em crise e sem demanda nenhuma por mão-de-obra tão capacitada, órgãos públicos sem novas vagas e impossibilitados de abrir concurso e uma possível obrigação de permanecer alguns anos no país, depois de uma bolsa no exterior com essa obrigação. Pelos menos os jornalistas demitidos não se sentirão mais como os profissionais mais bem formados e mal pagos do mercado. Mas, como disse, parte da culpa pelo que está acontecendo é nossa.

Em uma crise onde os gastos públicos precisam ser cortados a qualquer curso, por onde o governo começa? Serviços não essenciais, gastos exorbitantes, assessores e privilégios de gabinete desnecessários? A não ser que você queira acabar com qualquer chance de eleição, se começa pelo que perde menos apoio político e menos votos. E é aqui que o ostracismo acadêmico nos condena. Se o governo quiser fazer cortes agressivos sem incomodar nenhum eleitor, a ciência é um alvo ridiculamente fácil.

Pare qualquer transeunte na rua e pergunte o que muda na vida dessa pessoa se a pesquisa brasileira deixar de ser financiada e conte quantos serão capazes de dar alguma resposta. Pergunte o que ele acha que um professor ou um pesquisador faz dentro da universidade. Ou em quais áreas o Brasil é líder em pesquisa. Ou pelo menos em quais áreas somos fortes. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) perguntaram exatamente isso e descobriram que 87% dos brasileiros não lembram o nome de uma instituição de pesquisa. Uma. E 94% dos entrevistados não sabiam o nome de um(a) pesquisador(a) brasileiro(a), o pior resultado desde que a pesquisa começou. E o 8º cientista brasileiro nomeado foi… Albert Einstein. Isso porque a maior parte dos que responderam se disseram interessados por ciência.

A universidade ainda é um espaço para privilegiados que conseguiram passar nos vestibulares, entre eles o que vos fala. Não é um espaço popular – nem digo que deveria ser. E, mesmo assim, não são as vagas de graduação que estão sendo cortadas, embora não duvide que a situação chegue a esse ponto. O maior destaque que a USP, universidade que mais publica pesquisa no país recebeu na imprensa recentemente foi justamente como seriam exorbitantes os salários de seus professores. Que empatia pública isso gera?

No Workshop Comunicação e Pesquisa realizado este ano, que não poupou elogios sobre a importância e o prestígio da USP, o jornalista de ciência Marcelo Leite apontou o que vê como as maiores dificuldades para o jornalismo científico ter acesso à pesquisa da universidade. Quando destacou que com dois cliques nas páginas de Harvard, conseguia achar o nome e telefone de um dos biólogos mais prestigiosos da atualidade, E. O. Wilson – na verdade, só precisei escrever E O Wilson Harvard no Google e achei o link no primeiro resultado. E o pior, se um jornalista ligar para aquele número, Wilson atende e está disposto a dar entrevista. Enquanto o Portal da USP atrapalha mais do que ajuda. O que Marcelo Leite não citou é o incentivo que motiva a diferença: pesquisadores americanos dependem dessas entrevistas para ter verba para pesquisa. Aqui no Brasil, pelo menos até os dias atuais, nós não dependemos. Enquanto o pesquisador americano depende de várias fontes de financiamento que muitas vezes são incentivadas pelo destaque que ele tem na mídia, cientistas brasileiros são julgados pelo quanto e onde publicam, ou até pelo número de alunos que formam. Mas ninguém é julgado pelas atividades de extensão e divulgação científica que fazem. O resultado é que, para o cientista brasileiro, dar entrevista é literalmente perda de tempo (a curto prazo, vamos chegar nas consequências logo mais); tempo que se for investido gerando dados, gerenciando alunos ou escrevendo publicações seria convertido em verba para o laboratório.

Até bem pouco tempo, vivemos a situação cômoda de ter um orçamento público garantido que não demanda nenhuma satisfação sobre o que é feito além de projetos bem apresentados, gastos regulares e publicações científicas. Note que os três são fundamentais, mas nossas obrigações dialogam só com duas parcelas de interessados, a parte política através das agências de fomento e os outros cientistas, através das publicações. Nenhuma das duas envolve quem desembolsou o dinheiro: o público. Nos contentamos com o prestígio dos pares. O resultado é que raramente o público é informado sobre o que financia. Não sabem o que se passa dentro da universidade, porque financiam pesquisa e a compra de equipamentos caríssimos entre outros, vide a pesquisa do MCTI.

A NASA é um ótimo exemplo da importância da divulgação científica e do apoio popular. Dependem de verbas colossais para qualquer coisa, uma latrina na estação espacial custa milhões de verdade. E a maior parte desse financiamento é público. Ou seja, precisam de todo o apoio popular que conseguirem. Por isso mesmo fazem tanta divulgação da pesquisa que desenvolvem, convidam a imprensa para fazer estardalhaço de cada novo possível planeta que descobrem, divulgam as fotos lindas das missões e dos telescópios que usam. Como a foto que usei na abertura do post. O público americano sabe porque está financiando a NASA.

Tão importante para a SBPC quanto escrever manifestos e cartas pedindo o aumento do investimento em pesquisa é falar para o público o quão importante a pesquisa éPrecisamos falar sobre ciência, explicar o que é a pesquisa, fazer divulgação, dar entrevistas, fazer vídeos, contar histórias sobre o que queremos defender. Se eu consigo falar com 1 milhão de pessoas no YouTube, não é possível que as universidades não possam fazer o mesmo. Agir para ter o apoio e reconhecimento popular é tão importante quanto cobrar mudanças políticas. Ou são as Olimpíadas que estão sofrendo corte de verba?

A Dilma sabe qual a importância da pesquisa e do prejuízo futuro de acabar com a pesquisa nacional (espero). Os outros cientistas e acadêmicos sabem o prestígio que a pesquisa tem. Mas em um tempo em que estamos vendendo o jantar de amanhã para ter o que almoçar hoje, algo que só terá impacto negativo no futuro e será completamente ignorado pela população é o alvo mais fácil. Lembre-se, 87,2% não sabem nomear uma instituição de pesquisa. Somos como o Tyrion quando Mão Direita do rei (sinto pelos spoilers tão repentinos): fazendo um serviço essencial para o público (de novo, espero) que pode até ser reconhecido pelos pares, mas sem o menor apoio ou reconhecimento popular. E agora estamos na rua tentando convencer os transeuntes de que fazíamos algo importante.

 

Tyrion
É mais ou menos assim que imagino os pesquisadores brasileiros em 2016.
Texto escrito por: Atila Lamarino
Vale a pena ir lá no site dele e ler os mais de 100 comentários do post.

Ciência aberta, questões abertas


Disponível de forma gratuita na internet, livro discute o movimento pela ciência aberta, com reflexões teóricas e exemplos práticos dessa nova dinâmica de produção e circulação do conhecimento.

Ciência: falar abertamente

Movimento da ‘ciência aberta’, envolve não apenas o acesso gratuito a artigos e outras publicações, mas o estabelecimento de novas dinâmicas de produção do conhecimento (imagem: OpenSource.com/Flickr/CC BY-SA 2.0)

Acesso aberto, compartilhamento de dados e protocolos, financiamento coletivo. Essas expressões significam alguma coisa para você? Para os leitores que trabalham em instituições de pesquisa, provavelmente sim. Nas últimas décadas, muito se tem discutido sobre o acesso a informações científicas, frequentemente ‘presas’ a publicações editadas por instituições privadas e que cobram caro por elas. O movimento pela democratização desse conhecimento, que convencionamos chamar ‘ciência aberta’, envolve não apenas o acesso gratuito a artigos e outras publicações, mas o estabelecimento de novas dinâmicas de produção do conhecimento. Essas questões são abordadas no livro Ciência aberta, questões abertas, organizado por Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo.

Publicada em parceria pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), a obra reúne 12 artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, de diferentes áreas do conhecimento, que refletem sobre e atuam no movimento pela ciência aberta e colaborativa. Resultante de evento homônimo realizado em 2014 no Rio de Janeiro, Ciência aberta, questões abertas discute como essa forma de pensar o conhecimento modifica as relações entre os cientistas e, também, dos cientistas com a sociedade.

Uma perspectiva histórica

Livro Ciência Aberta, Questões Abertas
Livro sobre ciência aberta está disponível para download gratuito (imagem: divulgação)

Para fazer ciência, é preciso ler ciência – ou seja, consultar artigos e outras publicações científicas da área em que se deseja produzir conhecimento. Com essas publicações quase sempre nas mãos de editores privados, chegar ao conhecimento pode custar caro, e foi este o ponto de partida do movimento pela ciência aberta: o acesso livre a publicações científicas. Com o tempo, outras questões começaram a ser debatidas, como inovações no próprio modo de fazer ciência e até nas formas de financiamento – note-se o surgimento dos mecanismos de crowdfunding e sua aplicação a projetos de pesquisa. Essa “cultura do compartilhamento”, como cita Albagli no capítulo de abertura do livro, é o que marca a ciência aberta.

“Tem-se demonstrado que, historicamente, é no compartilhamento e na abertura à produção coletiva e não individual que melhor se desenvolvem a criatividade e a inovatividade”, escreve a pesquisadora do Ibict. “A complexidade dos desafios científicos e a urgência das questões sociais e ambientais que se apresentam às ciências impõem, por sua vez, facilitar a colaboração e o compartilhamento de dados, informações e descobertas”.

Não existe ainda, no entanto, um consenso sobre a extensão, o significado ou mesmo o modus operandi desta nova forma de se encarar o conhecimento. Para alguns, trata-se de uma retomada do verdadeiro espírito da ciência – o fazer desinteressado, sem fins lucrativos –, para outros, é mais do que isso: reflete um novo modo de pensar a própria ciência, com consequências diretas para o fazer científico, suas instituições e sua relação com a sociedade. Difícil escolher uma opção correta, claro. Conforme avança no mundo, o movimento pela ciência aberta ganha novos contornos, abraça novas causas e segue na direção de seus novos adeptos. Hoje, não se trata apenas de livre acesso a artigos e livros publicados, mas também de dados científicos abertos, wikipesquisa, ciência cidadã, educação aberta. Em poucas palavras, não apenas a noção do que seja a ‘abertura’ está em discussão, mas também o significado de ‘ciência’, provoca a autora.

Ciência aberta e domínio público
Para alguns, ciência aberta é uma retomada do verdadeiro espírito da ciência. Para outros, reflete um novo modo de pensar a própria ciência. (imagem: OpenSource.com/Flickr/CC BY-SA 2.0)

Albagli destaca, ainda, uma série de desafios éticos e políticos trazidos à tona pelo movimento da ciência aberta. Um deles é a tensão entre o compromisso de se tornar resultados de pesquisa rapidamente disponíveis para a utilização por terceiros e a ainda central preocupação com o combate ao plágio por parte das instituições de pesquisa e ensino em seus códigos de ética.

Por fim, a autora enfatiza que o movimento pela ciência aberta não tem consequências apenas para pesquisadores e suas instituições, mas também para a sociedade de uma maneira geral, uma vez que ela também sofre os impactos da privatização do conhecimento – um exemplo clássico é o consumo de medicamentos patenteados, cujos preços são determinados por quem detém a propriedade intelectual relativa à produção do fármaco, e não por quem precisa dele.

Livro aberto

Além de reflexões teóricas sobre a ciência aberta, os artigos apresentam experiências concretas em que o trabalho colaborativo rendeu frutos. Um exemplo inclui as tentativas de reduzir o custo das pesquisas e aumentar sua reprodutibilidade a partir da construção de equipamentos de laboratório de baixo custo – um caminho que tem valor especial nos países em desenvolvimento, onde os orçamentos para a ciência tendem a ser muito limitados.

Ciência aberta, questões abertas está – e como poderia não estar? – disponível de forma gratuita na internet. O conteúdo é licenciado pela Creative Commons, que permite sua ampla distribuição e, inclusive, que se crie novas obras a partir do livro – respeitado o crédito às fontes, é claro, e desde que o novo material seja licenciado da mesma maneira.

Ciência aberta, questões abertas
Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo (organizadores)
Ibict | UniRio

Estranho mapa do mundo baseado na produção científica


A World Map Based on Scientific Research Papers Produced

Se o mundo fosse mapeado de acordo com quantos trabalhos de investigação científica cada país produz, assumiria uma aparência bizarra e irregular. O norte se ampliaria, enquanto o hemisfério sul praticamente desapareceria.

O que impulsiona essa desigualdade?

Dinheiro e tecnologia são fatores que influenciam quanto se trata de produzir pesquisas. A média de pesquisa e desenvolvimento – isto é, como uma porcentagem do PIB – foi de 2,4% para os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, composta majoritariamente de nações do hemisfério norte, mas da qual o Chile é membro) em 2009. Em comparação, poucos países em desenvolvimento atingiram 1%.

Sem fundos nacionais suficientes, os pesquisadores gastam uma enorme quantidade de tempo tentando captar recursos e lidar com organizações fora de suas universidades. Isso significa menos tempo para realmente realizar e produzir pesquisas.

Grande exemplo disso é o da neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Primeira brasileira a dar uma palestra na Conferência TEDGlobal, ela tem pesquisa publicada na “Science”, uma das principais revistas científicas do mundo, mas corre o risco de ter que parar seus trabalhos no laboratório que chefia no Rio de Janeiro, por falta de recursos.

Quanto a tecnologia, é um problema principalmente na África. Lá, a internet é muito mais lenta e cara, tornando a colaboração entre pesquisadores do continente difícil, enquanto é muito mais simples para cientistas nos EUA, Europa e Ásia.

Muito além do tutu

Valores e práticas também contribuem para os desequilíbrios globais em produção científica. Mencionamos a “Science” ali em cima, não é? Pois essa e outras revistas científicas que preenchem o mapa-múndi bizarro não são neutras: o envolvimento com elas é caracterizado por vários níveis de participação desigual.

Um estudo com quatro revistas de alto impacto mostrou que elas atraíam autores de vários países do mundo, mas seus locais empíricos de investigação eram significativamente localizados na Europa e na América do Norte. Isto sugere que pesquisadores locais usam seus escassos recursos financeiros e técnicos para serem publicados em revistas supostamente internacionais. Além disso, bons cientistas do hemisfério sul estão fazendo pesquisa no norte, longe de suas casas.

Tendo em conta os ambientes de investigação limitados em que os pesquisadores estão inseridos, os recursos de todo o mundo podem ser usados para subsidiar a investigação do norte. Ao mesmo tempo, investigadores do norte que fazem pesquisa em países em desenvolvimento acabam publicando seus resultados nas mesmas revistas, localizadas no lado de cima do globo.

Pesquisa invisível

Há outro problema com este mapa: ele só conta como ciência artigos que são resultado da publicação em revistas científicas, ignorando coisas como monografias e relatórios técnicos e políticos, por exemplo. Além disso, exclui as ciências sociais e outros gêneros da área de humanidades.

Outra categoria de “investigação invisível” do sul é a encomendada pelo governo e realizada por consultores, muitos dos quais são do meio acadêmico. Mesmo quando é publicado, esse tipo de pesquisa muitas vezes não é atribuído aos seus verdadeiros autores.

O acesso é outra questão. As revistas cobiçadas geralmente são caras, e pesquisadores em ambientes com recursos limitados não podem se dar a esse luxo. A situação deve melhorar graças às políticas de acesso aberto sendo atualmente desenvolvidas na União Europeia, no Reino Unido e em outros lugares.

No entanto, se o mundo em desenvolvimento não criar políticas nacionais e regionais similares, a pesquisa nesse canto do planeta ficará ainda mais invisível. Isso pode involuntariamente consolidar a impressão errônea de que esses estudiosos não estão produzindo nada ou têm pouco a contribuir para o conhecimento global.

Fonte: http://hypescience.com/mapa-mundo-ciencia-producao-cientifica/