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Por que é tão difícil realizar o que planejamos?


Uma grande Jornada

madishy:
“Galactic Road by Johannes Nollmeyer
”

Uma das questões determinantes na gestão de projetos se resume em sua continuidade. Como chegar até o objetivo proposto?

Não são pequenas as decepções quando do atraso ou mesmo do malogro dos propósitos, depois de exauridos os recursos frente a projetos não concluídos. E por que isso acontece?

Numa metáfora toda a realização de um projeto pode ser comparada ao desafio de uma grande jornada.

E é muito difundido a ideia de que uma grande jornada começa pelo primeiro passo.

Essa é uma expressão muito bonita, porém isolada de instruções mais objetivas e de cunho prático não ajuda muito a responder à questão principal que ronda todo o debate filosófico desse tipo: afinal, como fazer para dar continuidade à jornada até concluí-la?

Que uma grande jornada começa pelo primeiro passo é óbvio.
Sim, começa. É este instante de decisão que define o início da jornada. O passo determinante.

Porém a jornada pode acabar ali mesmo no segundo ou no terceiro passo se não existir a determinação e os recursos necessários para se executar os incontáveis passos seguintes, que a constroem com a mesma decisão do primeiro.

Vale como exemplo todas as segundas-feiras de início da dieta hipocalórica ou todas as vezes que se decidiu parar de fumar.

É natural pressupor para a maioria das pessoas que e em algum momento esse objetivo acabou se esvaziando.

Caminhada

De fato, uma grande caminhada é resultado da sequência de passos executados um por vez encadeados numa corrente de passos que primam pela continuidade e pela constância, pois ninguém faz uma grande jornada apenas com o primeiro passo.

Embora exista um propósito dizendo “caminhe”, as dissidências interna e externa dizem “desista”.

O que acontece? – Desistimos.

Como fazer para que isso não aconteça? Como manter a energia de cada passo sem esmorecer?

Evidentemente isso tem a ver diretamente com erros no planejamento e na execução.

Cominuição

A primeira resposta está em nossa própria metáfora: cominuição, ou seja, devemos decompor a jornada em seus passos constituintes e planejar o que fazer passo a passo. Quais os recursos necessários? Qual velocidade deve ser impressa?

Na natureza nada ocorre aos saltos, ou expressando de outro jeito, tudo segue um fluxo dentro de um processo gradual.

Por isso é sábio desconfiar de mudanças radicais.

Toda alteração desse fluxo natural acaba gerando uma reação que na busca do equilíbrio desencadeia o famoso efeito rebote que na maioria das vezes faz com que as coisas voltem à estaca zero.

E esse dissabor já foi experimentado por diversas vezes.

Tomando novamente o exemplo da guerra contra a balança, já existem evidências de que o célebre efeito sanfona é o principal resultado de dietas e outras ações radicais (incluindo drogas e até algumas intervenções cirúrgicas).

Em suma, quando mais ao norte um sujeito quer ir mais ao sul ele chega por puro radicalismo.

Daí a ideia de dividir essa grande jornada em pequenos passos sem ações radicais.

Nas palavras de Gonzales Pecotche “devemos fragmentar uma grande tarefa em tarefas menores” sabendo que cada vez que uma dessas tarefas menores for cumprida surgirão estímulos para executar a tarefa seguinte.

Acho que vale tentar quando planejarmos algo.

Primeiro Passo

No entanto, antes de mais nada devemos perguntar para onde queremos ir e ter certeza desse objetivo.

Esse talvez seja o primeiro e determinante passo. Aquele que vai impulsionar todos os demais.

Para onde quero ir e por quê? Tenho certeza desse rumo?

Pois como diz Sêneca, para aquele que não sabe qual direção tomar todos os ventos sopram contra.

Artigo de Mustafá Ali Kanso

Fonte: http://hypescience.com/gestao-de-projetos-por-que-e-tao-dificil-realizar-o-que-planejamos/

Imagem: http://lost-in-nature.tumblr.com/post/114440821997/madishy-galactic-road-by-johannes-nollmeyer

A hora da verdade!


Na esteira do artigo da semana passada — gostaria de recapitular alguns dos aspectos mais importantes do método científico.

Em essência podemos afirmar que o método científico pode ser explicado pela conjugação de procedimentos que tem em vista a resolução de problemas ou a busca por respostas para determinado questionamento.

Nessa lista de procedimentos podemos alinhar a caracterização do problema, fundamentada em observações, quantificações e medidas.

Depois da caracterização do problema seguimos para a formulação de hipóteses, que seria — grosso modo — criar proposições iniciais que orientariam os experimentos necessários para confirmá-las ou refutá-las.

Depois de confirmadas as hipóteses poderiam fornecer elementos para realizar previsões, partindo-se de deduções geralmente apoiadas na lógica.

Em suma, do ponto de vista didático, podemos sugerir o seguinte encadeamento de procedimentos:

  1. Definir e delimitar o problema.
  2. Coleta de dados.
  3. Formulação de uma ou mais hipóteses.
  4. Realização de experimentos controlados, para testar a validade da(s) hipótese(s).
  5. Análise dos resultados
  6. Interpretação dos dados, formulação de conclusões ou de novas hipóteses.
  7. Publicação dos resultados para submetê-los à avaliação da comunidade científica.

Vou usar aqui um exemplo lúdico, que um ex-aluno meu — “nerd” de carteirinha — me enviou por e-mail para ilustrar esse encadeamento na arte da paquera.

Vamos imaginar que você é um jovem cientista e que sua colega de laboratório, aquela muito bonitinha, está manifestando um interesse descabido por você.

Parte 1: Delimitação do problema

Será que ela está a fim de mim?

Parte 2: Coleta de dados

Observando o comportamento da colega você encontrou indícios desse interesse.

Parte 3: Formulação de hipótese

Ela realmente está a fim de mim.

Parte 4: Experimento

Você a convida para sair.

Então ela responde que só sairá com você quando o inferno congelar.

Depois espalha a notícia pelo laboratório para que seu constrangimento fique completo.

Parte 5: Análise dos resultados

Hipótese refutada.

Parte 6. Interpretação dos dados

Ela não gosta de mim.

Novos problemas para serem delimitados para pesquisas futuras:

a) Será que ela me armou uma cilada?

ou

b) Fui eu quem viu algo onde nada existia?

Parte 7. Publicação dos resultados

Você sentencia para seus amigos:

— Jamais vou me envolver com colegas de trabalho novamente.

Princípio esse que pode ser questionado pela “comunidade científica”, no estilo, “não é bem assim”, “não generalize, pois fulana e beltrano trabalhavam juntos e se casaram”, etc.

O exemplo obviamente é uma brincadeira, que embora tenha o seu didatismo não pode ser tomado à letra.

Mas mesmo como anedota, a história traz nela embutido o célebre conselho que Francis Bacon nos dá – principalmente quando observamos o universo sem observarmos primeiro dentro de nós mesmos a ponto de formulamos alguns tipos de hipóteses bem pouco científicas.

Por isso, o pai da ciência moderna nos alerta :

“— Devemos tomar cuidado redobrado com tudo aquilo que queremos, com todas as forças, que seja verdade”.

Fonte: http://hypescience.com/a-hora-da-verdade/

Imagens:

A ciência brasileira está em crise e a culpa é dos cientistas


Desculpe fugir do esporte nacional de culpar o governo e nos responsabilizar por essa, mas me acompanhe.

O coração serve para conquistar o seu e o de quem financiou a missão.

 

Não é novidade que estamos em uma crise financeira das bravas. E a ciência foi pega pelo colarinho nessa, agências de pesquisa com verba cortada, universidades sem financiamento, etc. Nos corredores da USP – não sei das universidades fora de São Paulo, mas imagino que não seja melhor – o clima é de derrota. Bolsas de pesquisa novas não saem, bolsas já concedidas aos departamentos não são renovadas e os projetos de pesquisa, se aprovados, só com sérias restrições orçamentárias. Isso enquanto o dólar dispara do outro lado, fazendo com que cada meio real aprovado valha menos. Imagine que uma demora de alguns dias de uma cotação de equipamento são o suficiente para inviabilizar uma compra que não era opcional. Isso quando o dinheiro vem.

Pelo menos, ainda estamos na fase da derrota, não do desespero. Ainda. O desespero vem quando o maior número de doutores já formado se deparar com um mercado de trabalho em crise e sem demanda nenhuma por mão-de-obra tão capacitada, órgãos públicos sem novas vagas e impossibilitados de abrir concurso e uma possível obrigação de permanecer alguns anos no país, depois de uma bolsa no exterior com essa obrigação. Pelos menos os jornalistas demitidos não se sentirão mais como os profissionais mais bem formados e mal pagos do mercado. Mas, como disse, parte da culpa pelo que está acontecendo é nossa.

Em uma crise onde os gastos públicos precisam ser cortados a qualquer curso, por onde o governo começa? Serviços não essenciais, gastos exorbitantes, assessores e privilégios de gabinete desnecessários? A não ser que você queira acabar com qualquer chance de eleição, se começa pelo que perde menos apoio político e menos votos. E é aqui que o ostracismo acadêmico nos condena. Se o governo quiser fazer cortes agressivos sem incomodar nenhum eleitor, a ciência é um alvo ridiculamente fácil.

Pare qualquer transeunte na rua e pergunte o que muda na vida dessa pessoa se a pesquisa brasileira deixar de ser financiada e conte quantos serão capazes de dar alguma resposta. Pergunte o que ele acha que um professor ou um pesquisador faz dentro da universidade. Ou em quais áreas o Brasil é líder em pesquisa. Ou pelo menos em quais áreas somos fortes. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) perguntaram exatamente isso e descobriram que 87% dos brasileiros não lembram o nome de uma instituição de pesquisa. Uma. E 94% dos entrevistados não sabiam o nome de um(a) pesquisador(a) brasileiro(a), o pior resultado desde que a pesquisa começou. E o 8º cientista brasileiro nomeado foi… Albert Einstein. Isso porque a maior parte dos que responderam se disseram interessados por ciência.

A universidade ainda é um espaço para privilegiados que conseguiram passar nos vestibulares, entre eles o que vos fala. Não é um espaço popular – nem digo que deveria ser. E, mesmo assim, não são as vagas de graduação que estão sendo cortadas, embora não duvide que a situação chegue a esse ponto. O maior destaque que a USP, universidade que mais publica pesquisa no país recebeu na imprensa recentemente foi justamente como seriam exorbitantes os salários de seus professores. Que empatia pública isso gera?

No Workshop Comunicação e Pesquisa realizado este ano, que não poupou elogios sobre a importância e o prestígio da USP, o jornalista de ciência Marcelo Leite apontou o que vê como as maiores dificuldades para o jornalismo científico ter acesso à pesquisa da universidade. Quando destacou que com dois cliques nas páginas de Harvard, conseguia achar o nome e telefone de um dos biólogos mais prestigiosos da atualidade, E. O. Wilson – na verdade, só precisei escrever E O Wilson Harvard no Google e achei o link no primeiro resultado. E o pior, se um jornalista ligar para aquele número, Wilson atende e está disposto a dar entrevista. Enquanto o Portal da USP atrapalha mais do que ajuda. O que Marcelo Leite não citou é o incentivo que motiva a diferença: pesquisadores americanos dependem dessas entrevistas para ter verba para pesquisa. Aqui no Brasil, pelo menos até os dias atuais, nós não dependemos. Enquanto o pesquisador americano depende de várias fontes de financiamento que muitas vezes são incentivadas pelo destaque que ele tem na mídia, cientistas brasileiros são julgados pelo quanto e onde publicam, ou até pelo número de alunos que formam. Mas ninguém é julgado pelas atividades de extensão e divulgação científica que fazem. O resultado é que, para o cientista brasileiro, dar entrevista é literalmente perda de tempo (a curto prazo, vamos chegar nas consequências logo mais); tempo que se for investido gerando dados, gerenciando alunos ou escrevendo publicações seria convertido em verba para o laboratório.

Até bem pouco tempo, vivemos a situação cômoda de ter um orçamento público garantido que não demanda nenhuma satisfação sobre o que é feito além de projetos bem apresentados, gastos regulares e publicações científicas. Note que os três são fundamentais, mas nossas obrigações dialogam só com duas parcelas de interessados, a parte política através das agências de fomento e os outros cientistas, através das publicações. Nenhuma das duas envolve quem desembolsou o dinheiro: o público. Nos contentamos com o prestígio dos pares. O resultado é que raramente o público é informado sobre o que financia. Não sabem o que se passa dentro da universidade, porque financiam pesquisa e a compra de equipamentos caríssimos entre outros, vide a pesquisa do MCTI.

A NASA é um ótimo exemplo da importância da divulgação científica e do apoio popular. Dependem de verbas colossais para qualquer coisa, uma latrina na estação espacial custa milhões de verdade. E a maior parte desse financiamento é público. Ou seja, precisam de todo o apoio popular que conseguirem. Por isso mesmo fazem tanta divulgação da pesquisa que desenvolvem, convidam a imprensa para fazer estardalhaço de cada novo possível planeta que descobrem, divulgam as fotos lindas das missões e dos telescópios que usam. Como a foto que usei na abertura do post. O público americano sabe porque está financiando a NASA.

Tão importante para a SBPC quanto escrever manifestos e cartas pedindo o aumento do investimento em pesquisa é falar para o público o quão importante a pesquisa éPrecisamos falar sobre ciência, explicar o que é a pesquisa, fazer divulgação, dar entrevistas, fazer vídeos, contar histórias sobre o que queremos defender. Se eu consigo falar com 1 milhão de pessoas no YouTube, não é possível que as universidades não possam fazer o mesmo. Agir para ter o apoio e reconhecimento popular é tão importante quanto cobrar mudanças políticas. Ou são as Olimpíadas que estão sofrendo corte de verba?

A Dilma sabe qual a importância da pesquisa e do prejuízo futuro de acabar com a pesquisa nacional (espero). Os outros cientistas e acadêmicos sabem o prestígio que a pesquisa tem. Mas em um tempo em que estamos vendendo o jantar de amanhã para ter o que almoçar hoje, algo que só terá impacto negativo no futuro e será completamente ignorado pela população é o alvo mais fácil. Lembre-se, 87,2% não sabem nomear uma instituição de pesquisa. Somos como o Tyrion quando Mão Direita do rei (sinto pelos spoilers tão repentinos): fazendo um serviço essencial para o público (de novo, espero) que pode até ser reconhecido pelos pares, mas sem o menor apoio ou reconhecimento popular. E agora estamos na rua tentando convencer os transeuntes de que fazíamos algo importante.

 

Tyrion
É mais ou menos assim que imagino os pesquisadores brasileiros em 2016.
Texto escrito por: Atila Lamarino
Vale a pena ir lá no site dele e ler os mais de 100 comentários do post.

Ciência aberta, questões abertas


Disponível de forma gratuita na internet, livro discute o movimento pela ciência aberta, com reflexões teóricas e exemplos práticos dessa nova dinâmica de produção e circulação do conhecimento.

Ciência: falar abertamente

Movimento da ‘ciência aberta’, envolve não apenas o acesso gratuito a artigos e outras publicações, mas o estabelecimento de novas dinâmicas de produção do conhecimento (imagem: OpenSource.com/Flickr/CC BY-SA 2.0)

Acesso aberto, compartilhamento de dados e protocolos, financiamento coletivo. Essas expressões significam alguma coisa para você? Para os leitores que trabalham em instituições de pesquisa, provavelmente sim. Nas últimas décadas, muito se tem discutido sobre o acesso a informações científicas, frequentemente ‘presas’ a publicações editadas por instituições privadas e que cobram caro por elas. O movimento pela democratização desse conhecimento, que convencionamos chamar ‘ciência aberta’, envolve não apenas o acesso gratuito a artigos e outras publicações, mas o estabelecimento de novas dinâmicas de produção do conhecimento. Essas questões são abordadas no livro Ciência aberta, questões abertas, organizado por Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo.

Publicada em parceria pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), a obra reúne 12 artigos de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, de diferentes áreas do conhecimento, que refletem sobre e atuam no movimento pela ciência aberta e colaborativa. Resultante de evento homônimo realizado em 2014 no Rio de Janeiro, Ciência aberta, questões abertas discute como essa forma de pensar o conhecimento modifica as relações entre os cientistas e, também, dos cientistas com a sociedade.

Uma perspectiva histórica

Livro Ciência Aberta, Questões Abertas
Livro sobre ciência aberta está disponível para download gratuito (imagem: divulgação)

Para fazer ciência, é preciso ler ciência – ou seja, consultar artigos e outras publicações científicas da área em que se deseja produzir conhecimento. Com essas publicações quase sempre nas mãos de editores privados, chegar ao conhecimento pode custar caro, e foi este o ponto de partida do movimento pela ciência aberta: o acesso livre a publicações científicas. Com o tempo, outras questões começaram a ser debatidas, como inovações no próprio modo de fazer ciência e até nas formas de financiamento – note-se o surgimento dos mecanismos de crowdfunding e sua aplicação a projetos de pesquisa. Essa “cultura do compartilhamento”, como cita Albagli no capítulo de abertura do livro, é o que marca a ciência aberta.

“Tem-se demonstrado que, historicamente, é no compartilhamento e na abertura à produção coletiva e não individual que melhor se desenvolvem a criatividade e a inovatividade”, escreve a pesquisadora do Ibict. “A complexidade dos desafios científicos e a urgência das questões sociais e ambientais que se apresentam às ciências impõem, por sua vez, facilitar a colaboração e o compartilhamento de dados, informações e descobertas”.

Não existe ainda, no entanto, um consenso sobre a extensão, o significado ou mesmo o modus operandi desta nova forma de se encarar o conhecimento. Para alguns, trata-se de uma retomada do verdadeiro espírito da ciência – o fazer desinteressado, sem fins lucrativos –, para outros, é mais do que isso: reflete um novo modo de pensar a própria ciência, com consequências diretas para o fazer científico, suas instituições e sua relação com a sociedade. Difícil escolher uma opção correta, claro. Conforme avança no mundo, o movimento pela ciência aberta ganha novos contornos, abraça novas causas e segue na direção de seus novos adeptos. Hoje, não se trata apenas de livre acesso a artigos e livros publicados, mas também de dados científicos abertos, wikipesquisa, ciência cidadã, educação aberta. Em poucas palavras, não apenas a noção do que seja a ‘abertura’ está em discussão, mas também o significado de ‘ciência’, provoca a autora.

Ciência aberta e domínio público
Para alguns, ciência aberta é uma retomada do verdadeiro espírito da ciência. Para outros, reflete um novo modo de pensar a própria ciência. (imagem: OpenSource.com/Flickr/CC BY-SA 2.0)

Albagli destaca, ainda, uma série de desafios éticos e políticos trazidos à tona pelo movimento da ciência aberta. Um deles é a tensão entre o compromisso de se tornar resultados de pesquisa rapidamente disponíveis para a utilização por terceiros e a ainda central preocupação com o combate ao plágio por parte das instituições de pesquisa e ensino em seus códigos de ética.

Por fim, a autora enfatiza que o movimento pela ciência aberta não tem consequências apenas para pesquisadores e suas instituições, mas também para a sociedade de uma maneira geral, uma vez que ela também sofre os impactos da privatização do conhecimento – um exemplo clássico é o consumo de medicamentos patenteados, cujos preços são determinados por quem detém a propriedade intelectual relativa à produção do fármaco, e não por quem precisa dele.

Livro aberto

Além de reflexões teóricas sobre a ciência aberta, os artigos apresentam experiências concretas em que o trabalho colaborativo rendeu frutos. Um exemplo inclui as tentativas de reduzir o custo das pesquisas e aumentar sua reprodutibilidade a partir da construção de equipamentos de laboratório de baixo custo – um caminho que tem valor especial nos países em desenvolvimento, onde os orçamentos para a ciência tendem a ser muito limitados.

Ciência aberta, questões abertas está – e como poderia não estar? – disponível de forma gratuita na internet. O conteúdo é licenciado pela Creative Commons, que permite sua ampla distribuição e, inclusive, que se crie novas obras a partir do livro – respeitado o crédito às fontes, é claro, e desde que o novo material seja licenciado da mesma maneira.

Ciência aberta, questões abertas
Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo (organizadores)
Ibict | UniRio

Estranho mapa do mundo baseado na produção científica


A World Map Based on Scientific Research Papers Produced

Se o mundo fosse mapeado de acordo com quantos trabalhos de investigação científica cada país produz, assumiria uma aparência bizarra e irregular. O norte se ampliaria, enquanto o hemisfério sul praticamente desapareceria.

O que impulsiona essa desigualdade?

Dinheiro e tecnologia são fatores que influenciam quanto se trata de produzir pesquisas. A média de pesquisa e desenvolvimento – isto é, como uma porcentagem do PIB – foi de 2,4% para os países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, composta majoritariamente de nações do hemisfério norte, mas da qual o Chile é membro) em 2009. Em comparação, poucos países em desenvolvimento atingiram 1%.

Sem fundos nacionais suficientes, os pesquisadores gastam uma enorme quantidade de tempo tentando captar recursos e lidar com organizações fora de suas universidades. Isso significa menos tempo para realmente realizar e produzir pesquisas.

Grande exemplo disso é o da neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Primeira brasileira a dar uma palestra na Conferência TEDGlobal, ela tem pesquisa publicada na “Science”, uma das principais revistas científicas do mundo, mas corre o risco de ter que parar seus trabalhos no laboratório que chefia no Rio de Janeiro, por falta de recursos.

Quanto a tecnologia, é um problema principalmente na África. Lá, a internet é muito mais lenta e cara, tornando a colaboração entre pesquisadores do continente difícil, enquanto é muito mais simples para cientistas nos EUA, Europa e Ásia.

Muito além do tutu

Valores e práticas também contribuem para os desequilíbrios globais em produção científica. Mencionamos a “Science” ali em cima, não é? Pois essa e outras revistas científicas que preenchem o mapa-múndi bizarro não são neutras: o envolvimento com elas é caracterizado por vários níveis de participação desigual.

Um estudo com quatro revistas de alto impacto mostrou que elas atraíam autores de vários países do mundo, mas seus locais empíricos de investigação eram significativamente localizados na Europa e na América do Norte. Isto sugere que pesquisadores locais usam seus escassos recursos financeiros e técnicos para serem publicados em revistas supostamente internacionais. Além disso, bons cientistas do hemisfério sul estão fazendo pesquisa no norte, longe de suas casas.

Tendo em conta os ambientes de investigação limitados em que os pesquisadores estão inseridos, os recursos de todo o mundo podem ser usados para subsidiar a investigação do norte. Ao mesmo tempo, investigadores do norte que fazem pesquisa em países em desenvolvimento acabam publicando seus resultados nas mesmas revistas, localizadas no lado de cima do globo.

Pesquisa invisível

Há outro problema com este mapa: ele só conta como ciência artigos que são resultado da publicação em revistas científicas, ignorando coisas como monografias e relatórios técnicos e políticos, por exemplo. Além disso, exclui as ciências sociais e outros gêneros da área de humanidades.

Outra categoria de “investigação invisível” do sul é a encomendada pelo governo e realizada por consultores, muitos dos quais são do meio acadêmico. Mesmo quando é publicado, esse tipo de pesquisa muitas vezes não é atribuído aos seus verdadeiros autores.

O acesso é outra questão. As revistas cobiçadas geralmente são caras, e pesquisadores em ambientes com recursos limitados não podem se dar a esse luxo. A situação deve melhorar graças às políticas de acesso aberto sendo atualmente desenvolvidas na União Europeia, no Reino Unido e em outros lugares.

No entanto, se o mundo em desenvolvimento não criar políticas nacionais e regionais similares, a pesquisa nesse canto do planeta ficará ainda mais invisível. Isso pode involuntariamente consolidar a impressão errônea de que esses estudiosos não estão produzindo nada ou têm pouco a contribuir para o conhecimento global.

Fonte: http://hypescience.com/mapa-mundo-ciencia-producao-cientifica/

Biomimética – a inovação inspirada na natureza


Conceito e etimologia

A etimologia do termo biomimética está relacionada diretamente com a conjugação dos termos gregos bios: vida; e mimesis: imitação, denominando um novo corpo de conhecimentos que encontra em alguma característica dos seres vivos seu modelo, seu mentor e/ou uma fonte de inspiração.

É evidente que boa parte de nossa tecnologia seria no fundo biomimética, haja vista que não é muito difícil encontrarmos seu similar na natureza, como por exemplo, a criação do avião que se inspirou na habilidade dos pássaros ou a do submarino que tem sua fagulha criadora na realidade da vida subaquática.

Importância

Pesquisadores da envergadura de Stephen Wainwright afirmam que a biomimética em breve ultrapassará a biologia molecular e a substituirá “como a mais desafiadora e importante ciência biológica do Século XXI”

Na opinião do professor Mehmet Sarikaya:

“Estamos no limiar de uma revolução de materiais equivalente à que houve na Idade do Ferro e na Revolução Industrial e a biomimética será o mais importante agente que modificará profundamente a forma de como nos relacionamos com a natureza e com nós mesmos.

Algumas de suas aplicações

Velcro

Desenvolvido pelo engenheiro George de Mestral a partir da observação de que sementes de algumas gramíneas são dotadas de espinhos e ganchos que as habilitam de se prender nos pelos dos animais.

Superfícies de baixo atrito

São desenvolvidas aplicações inovadoras, como trajes de natação e mergulho mais hidrodinâmicos, inspirados na pele dos tubarões ou mesmo carenagens mais aerodinâmicas para os mais variados veículos, de trens a aviões, valendo-se do estudo da biomecânica do voo dos pássaros.

Telas “asa-de-borboleta”

Novas superfícies de visualização de baixíssimo consumo de energia, fundamentada nas propriedades reflexivas das asas de algumas espécies de borboletas.

Turbina “WhalePower”

O design das pás de turbinas eólicas inspirado na geometria das barbatanas da baleia jubarte produzem 32% menos atrito e 8% menos arrasto que as lâminas convencionais.

Carro biônico

Desenvolvido pela Mercedes-Benz a partir da geometria hidrodinâmica do peixe cofre, o “Bionic car” atinge um coeficiente aerodinâmico de 0,19 e consome até 20% menos combustível que um veículo convencional de potência equivalente.

Efeito lótus

Fundamentado no design e textura das folhas do lótus que repele a água e a poeira, diversas dessas soluções estão sendo desenvolvidas pela indústria para sua aplicação em tecidos, carenagens metálicas, para-brisas de aviões e faróis de automóveis.

Abrangência

A célebre pesquisadora norte americana em Ciências da Natureza Janine Benyus conceitua a biomimética exatamente por esses três vieses:

  1. A natureza como modelo
  2. A natureza como mentora
  3. A natureza como medida

No primeiro caso, tendo a natureza como modelo, está se tornando possível, no design o desenvolvimento de aplicações inovadoras, como os já citados trajes de natação e mergulho e as carenagens mais aerodinâmicas.

Muitos especialistas garantem que, nessa área, a investigação está apenas começando.

Em sua segunda dimensão, tomando-se a natureza como mentora, a tecnologia inovadora deve contemplar inevitavelmente a sustentabilidade e a usabilidade.

Muito mais do que simplesmente extrair da natureza a matéria-prima até o seu esgotamento, há que se aprender com a natureza a importância de seus ciclos e metodologia na construção de uma verdadeira política de consciência ambiental, imprescindível para sustentar a vida em sua diversidade e em seu delicado equilíbrio.

Esse aprendizado, notadamente, aponta para a terceira dimensão da biomimética, que é a de tomar a natureza como medida.

Ora, nesses 3,8 bilhões de anos de evolução os processos naturais testaram, por tentativa e erro, o que funciona e o que não funciona na preservação de uma espécie e de seu habitat.

E é nesse viés, de fato, que se reafirma:

— Quem não aprende a lição com a história, identificando seus erros, está fadado a repeti-los.

Na esteira de suas mais recentes conclusões ecológicas — que inevitavelmente passa pela avaliação de que a extinção em massa é uma realidade — seria oportuno do ponto de vista da biomimética, nessa altura, antever o que funcionará e o que não funcionará amanhã para garantir, por exemplo, a nossa sobrevivência enquanto espécie.

Fontes:

Mistério resolvido: descubra se a água realmente gira para lados diferentes em hemisférios diferentes


Does Water Really Swirl Differently in Australia? YouTube Stars Find Out

O Smarter Every Day e o Veritasium, dois dos melhores canais de ciências no YouTube, se uniram para responder de uma vez por todas: será que a água realmente flui para o outro lado dependendo do hemisfério?

Destin Sandlin, apresentador do Smarter Every Day (no Alabama, Estados Unidos) e Derek Muller, do Veritasium (que está em Sydney, na Austrália) filmaram cada um vídeo em seus respectivos hemisférios para desvendar este boato científico. Os dois são feitos para serem vistos em sincronia, e foram filmados de tal forma que o diálogo, a música e os efeitos se encaixam como se fosse um só.

É uma colaboração planejada há três anos. Aperte o play, faça uma pausa na marca de sincronização, inicie o outro, e reinicie o primeiro quando ambos encontrarem-se:

No experimento, cada um preencheu uma piscina infantil com água. Eles não quiseram simplesmente usar banheiras e vasos sanitários, por causa das muitas variáveis envolvidas. As descargas têm jatos que influenciam o fluxo da água, e não importa onde você esteja na Terra, haverá vasos sanitários e pias que drenam no sentido horário, e outros que fluem no sentido anti-horário. Ou seja, esqueça a ideia de viajar e achar que é porque está em outro lugar do planeta que o vaso está girando em uma direção diferente da sua casa. Dentro da sua própria casa, pias e sanitários podem girar em direções diferentes.

Cada piscina infantil estava cheia e foi deixada em repouso durante 24 horas. Em seguida, eles puxaram os plugues na parte de baixo de cada banheira, colocaram corantes para observar o efeito visual da água drenando.

O resultado? A água, de fato, foi drenada no sentido anti-horário nos EUA e no sentido horário na Austrália. Conforme a Terra gira sobre seu eixo, ela puxa a água em direções diferentes, dependendo de onde você está. Podemos ver isso na natureza com o chamado “efeito coriolis”: furacões no hemisfério norte têm rotação anti-horária, enquanto que os ciclones no hemisfério sul rodam no sentido horário.

Esse efeito, também conhecido como força coriolis, é a tendência dos corpos em movimento de mudarem de direção dependendo da direção rotacional e da velocidade da Terra. Ele influencia, além do movimento dos furacões e ciclones, o movimento das massas de ar e a trajetória de projéteis de longo alcance.

Fonte: http://hypescience.com/agua-realmente-gira-para-lados-diferentes-em-hemisferios-diferentes/