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Três dicas das neurociências para incrementar sua memória


Todos nós sabemos que aprender não se resume simplesmente em memorizar. No entanto o aprendizado efetivo precisa de uma memória bem concatenada e vitaminada para não dar branco na hora H.

Daí a importância de manter essas engrenagens bem azeitadas.

Trazemos aqui algumas dicas fundamentadas em recentes conquistas das neurociências e que intuitivamente alguns estudantes já utilizam com excelentes resultados, tanto para incrementar sua memória quanto o aprendizado.

  1. Realizar conexões em rede

Toda a informação nova quando conectada a pelo menos uma informação já memorizada tem maiores chances de ser recordada. À medida que o número de conexões vai aumentando a probabilidade de resgate dessa nova informação na memória vai se aproximando dos 100%.

Um dos exemplos mais singelos dessa aplicação é o utilizado por alguns políticos, quando não querem esquecer o nome de um eleitor. Eles simplesmente associam mentalmente o nome desse eleitor ao de outra pessoa de mesmo nome e que pertença a seu contato mais corriqueiro, seja por alguma característica física ou aspecto de sua personalidade que apresentam em comum. Logo, logo terá uma rede de Josés, Eduardos, Marias, etc armazenada em sua memória.

Notadamente quando estamos estudando conceitos científicos, por exemplo, e efetuando conexões entre as informações dentro desse próprio campo de estudo, ocorre um favorecimento pronunciado do aprendizado como um todo, não apenas a simples memorização de um conceito, mas sua compreensão como parte de um corpo harmônico de conhecimentos.

  1. Utilizar o potencial emocional-afetivo

Está comprovado que as emoções, os sentimentos e as relações de afeto interferem significativamente na construção das memórias e de seu resgate.

Efetivamente quando colocamos “o coração” naquilo que fazemos as chances de que o recordemos são maiores.

É daí que etimologicamente se origina o saber de “cor” (cor = coração em latim).

Tais vínculos podem ser naturais, como por exemplo, a facilidade que temos em recordar os momentos mais felizes (ou os mais tristes) de nossas vidas.

Ou mesmo a vinculação de lugares, cores, odores, sabores e sons aos sentimentos, ou estados emocionais vividos. Como o cheiro da terra molhada que reacende recordações vívidas da infância ou ouvir tal música que faz recordar as sensações vividas em determinado momento da adolescência, etc.

Ou de aprender aquele conteúdo que gostamos ou estamos inclinados a gostar.

Também esse tipo de vinculação pode ser criado, como, por exemplo, a facilidade que encontramos em aprender os conteúdos ministrados por professores bem humorados e que usam do lúdico como uma de suas técnicas de ensino e que também são capazes de invocar as emoções mais elevadas no instante em que ensinam.

Daí que o favorecimento da memória, e também do aprendizado, dependem fundamentalmente de nosso estado emocional.

Cabe então aquela perguntinha incômoda: estou motivado para aprender? Quero mesmo aprender isso?

Nas palavras de Rubem Alves o esquecimento é o vômito da mente.  E o ato de vomitar alguma coisa inútil ou — que não nos faz bem — é sinal de saúde!

  1. Realizar reiterações

Muitos estudantes utilizam a técnica de repetir em voz alta uma informação a ser memorizada ou até mesmo escrever várias vezes em papeis de rascunho a fórmula matemática, a equação química ou o termo da biologia e assim por diante.

A repetição em si favorece a memorização, como o observado, por exemplo, no aprendizado de idiomas, de técnicas esportivas, de coreografias, etc.

No entanto, a repetição tende a ser exaustiva e na maioria das vezes monótona e os resultados nem sempre são os esperados quando computado todo o esforço.

Por isso, no lugar de simplesmente repetir mecanicamente é recomentada a reiteração, ou seja a repetição vinculada ao uso de um corpo completo daquele tipo de conhecimento.

Numa analogia: é bem mais produtivo, numa aula de um idioma estrangeiro utilizar vocábulos de forma reiterada como parte de uma conversação do que simplesmente repeti-los isoladamente.

Reiterar é reviver várias vezes aquela experiência com um aprendizado a mais em cada uma de suas repetições. Em suma, repetir e aperfeiçoar.

Bônus: uma reflexão filosófica

A reiteração usa a repetição de forma inteligente e conectada, valendo-se tanto da conexão cognitiva feita pela natureza da informação quanto da forma sensível-afetiva envolvida valendo-se da intensidade de sua carga emocional.

Se observarmos nossa vida diária, existe uma rotina que segue ciclos mais ou menos constantes e repetidos.

Podemos utilizar esses ciclos para reiterar nossa capacidade retentiva, melhorando nossa capacidade de recordar e também de aprender ou, como muitos fazem, ligar o piloto automático e deixar a vida passar sem ensinar e nem aprender nada.

A escolha é nossa:

Fazermos da nossa vida uma experiência memorável ou deixar passar, pois afinal não há nada que valha à pena recordar.

Fonte: http://hypescience.com/tres-dicas-das-neurociencias-para-incrementar-sua-memoria/

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Cientistas inventam decodificador do cérebro que pode ler seus pensamentos íntimos


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Salve-se quem puder: pesquisadores da Universidade da Califórnia (EUA) conseguiram escutar os pensamentos íntimos de seus pacientes usando uma espécie de “decodificador do cérebro”.

Sei que isso soa muito assustador – não é algo que a maioria de nós deseje, ter seus pensamentos lidos -, mas o objetivo da pesquisa é mais nobre do que bisbilhotar a vida alheia: este é um passo importante para o desenvolvimento de um dispositivo que pode ajudar pacientes paralisados a falar novamente.

O processo

Quando você ouve alguém falar, ondas sonoras ativam neurônios específicos que permitem que seu cérebro interprete os sons como palavras.

Os cientistas criaram um algoritmo que faz a mesma coisa, mas interpretando atividade do cérebro em vez de ondas sonoras.

Para aprender a traduzir os pensamentos das pessoas, eles observaram a atividade cerebral de sete pacientes submetidos à cirurgia de epilepsia. Os participantes foram convidados a ler em voz alta um pequeno pedaço de texto e, em seguida, lê-lo silenciosamente em sua cabeça.

Enquanto liam o texto em voz alta, a equipe construiu um “decodificador” pessoal para cada paciente, mapeando os neurônios que estavam reagindo a diferentes aspectos da fala. Eles fizeram este mapa usando eletrocorticográfica (ECoG), através de eletrodos implantados nos pacientes.

Uma vez que descobriram os padrões cerebrais relacionados com certas palavras, usaram seu decodificador para tentar ler a atividade cerebral dos pacientes durante uma leitura silenciosa.

Resultado? Foram capazes de traduzir várias palavras que os voluntários estavam pensando.

Os pesquisadores também aplicaram o decodificador enquanto os participantes ouviam músicas do Pink Floyd, para ver que neurônios respondiam a várias notas musicais.

A equipa pretende agora refinar seus algoritmos para, em última análise, entenderem o discurso dentro do cérebro bem o suficiente para criar uma prótese médica que poderia ajudar pacientes que não podem falar.

Fonte: http://hypescience.com/cientistas-inventam-decodificador-cerebro-que-pode-ler-seus-pensamentos-intimos/

Como ilusões de óptica enganam seu cérebro


Ilusões de óptica são imagens que enganam nossos cérebros em ver algo diferente do que está lá na realidade.

Mas como elas funcionam?

Este vídeo exibe algumas ilusões comuns e explica como estes truques visuais nos ensinam sobre como nossos cérebros reúnem informações visuais para formar o mundo tridimensional que vemos ao nosso redor. E é fascinante como imagens simples podem nos enganar com tanta facilidade.

Fonte: http://hypescience.com/como-ilusoes-de-optica-enganam-seu-cerebro/

O diálogo entre a neurociência e a educação: da euforia aos desafios e possibilidades


Resumo do artigo de Leonor Guerra:

Educar é proporcionar oportunidades e orientação para aprendizagem, para aquisição de novos comportamentos. Comportamentos resultam da atividade cerebral. O cérebro, portanto, é o órgão da aprendizagem. As descobertas das neurociências estão esclarecendo alguns dos mecanismos cerebrais responsáveis por funções mentais importantes na aprendizagem. No entanto, a aplicação desse conhecimento no contexto educacional tem limitações. As neurociências não propõem uma nova pedagogia, mas fundamentam a prática pedagógica que já se realiza, demonstrando que estratégias pedagógicas, que respeitam a forma como o cérebro funciona, tendem a ser mais eficientes. Conhecer a aprendizagem numa perspectiva neurobiológica pode auxiliar educadores, professores e pais, a compreender alguns aspectos das dificuldades para aprendizagem e inspirar práticas educacionais, mas não possibilita a prescrição de receitas para a solução dos problemas da educação. Aprendizagem não depende apenas do funcionamento cerebral. Diversos fatores, como condições gerais de saúde, ambiente familiar, estímulos na infância, interação social, tipo de escola, aspectos culturais, sócio-econômicos e até políticas públicas de educação, também interferem na aprendizagem. Cabe, assim, uma reflexão sobre as possibilidades e desafios do diálogo entre a neurociência e a educação.

 

Quer saber mais? Acesse o artigo completo aqui: http://interlocucao.loyola.g12.br/index.php/revista/article/view/91/74

A ascensão da neurobobagem popular


Bióloga e educadora comenta como a apropriação indevida do conhecimento e a deturpação de dados de pesquisa vêm alavancando a comercialização de produtos que nada têm de científicos.

Por: Vera Rita da Costa

Publicado em 19/02/2014 | Atualizado em 19/02/2014

A ascensão da neurobobagem popularPara conferir a ascensão da ‘neurobobagem’, basta um passeio a nossas livrarias: elas estão cheias de livros de autoajuda, ‘ginástica cerebral’ e programas de treinamento pseudocientíficos. (montagem: Alicia Ivanissevich)

Talvez o leitor ache o título muito agressivo. Pode ser. No entanto, ele não desagradaria totalmente aos neurocientistas sérios, que têm visto seus dados de pesquisa, assim como os de outros colegas dessa área do conhecimento, serem apropriados, distorcidos e extrapolados por pessoas interessadas em vender manchetes em jornais e revistas, livros de autoajuda ou programas de treinamento e outros ‘neuroprodutos’ pseudocientíficos.

Os dados de uma pesquisa da neurocientista Molly Crockett foram mal compreendidos e transformados em manchetes equivocadas, sendo replicados e deturpados para servir a outros interesses

Para compreender melhor o que menciono, sugiro conhecer a opinião da neurocientista Molly Crockett, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, apresentada na  conferência que ela realizou para a fundaçãoTechnology, Entertainment, Design (TED) – mais conhecida como TED Conference – e disponível na internet. Nela, a pesquisadora conta como os dados de uma pesquisa da qual foi coautora foram mal compreendidos e transformados em manchetes equivocadas, sendo replicados e deturpados para servir a interesses totalmente alheios aos seus ou da pesquisa original.

Para se ter uma ideia do que aconteceu, basta dizer que a divulgação da pesquisa de Molly Crockett, cujo objetivo principal era testar como as substâncias químicas do cérebro influenciam as escolhas que fazemos, rendeu manchetes do tipo: “Um sanduíche de queijo é tudo o que você precisa para tomar decisões difíceis”; “Comer queijo e carne pode aumentar o autocontrole” e “Comprovado! O chocolate não deixa você ficar ranzinza”.

Em nome do humor e bem-estar

“Onde está o problema?”, questiona-se Molly Crockett. “Está na frequência com que isso está acontecendo e no fato de os conhecimentos neurocientíficos (realmente interessantes) estarem sendo apropriados de maneira indevida e deturpados para alavancar a comercialização de produtos.” Como exemplo, Crockett cita seu próprio trabalho: quando as primeiras manchetes sobre a pesquisa de que participou apareceram na imprensa, ela foi procurada por empresários interessados em contar com seu “respaldo científico” para o lançamento de “bebidas para melhorar o humor” ou “comidas reconfortantes”, capazes de fazer com que nos sintamos melhor.

Embora não tenha aceitado a proposta, os produtos não deixaram de ir para as prateleiras dos mercados. Há nos Estados Unidos atualmente toda uma linha de ‘neurodrinques’ ou ‘neurobebidas’ anunciadas como “capazes de diminuir o estresse, melhorar o humor, aumentar a concentração e promover uma postura positiva”. Sem endossos científicos ou testes controlados. Apenas a imagem de um cérebro na embalagem, como forma de certificar a pseudodescoberta e alavancar as vendas.

O avanço nas pesquisas em neurociências e sua maior divulgação têm, assim, dado margem a extrapolações indevidas. Além disso, como comentei anteriormente em texto publicado aqui, certos ‘achados’ em neurociências não necessariamente estão respaldados ou passaram pelos crivos científicos estabelecidos. E são tomados pela população, de modo amplo, e pela imprensa, em particular, como fatos inequívocos, quando na realidade não passam de ‘ciência de má qualidade’ ou de pura especulação.

Segundo Crockett, basta associar a imagem de um produto a informações consideradas neurocientíficas ou a imagens de cérebros para aumentar sua credibilidade. E, longe de ser apenas uma impressão da pesquisadora, deve-se frisar: seu alerta está baseado em resultados de pesquisas que envolveram, entre outros, os próprios especialistas em neurociências e professores.

Neuromitos

Em um desses estudos, ‘The Seductive Allure of Neuroscience Explanations’, realizado na Universidade Yale (Estados Unidos) e publicado no Journal of Cognitive Neuroscience, verificou-se, por exemplo, que a mera descrição de fenômenos psicológicos gera mais interesse público quando contém informações neurocientíficas, mesmo que essas informações sejam irrelevantes para a compreensão dos fenômenos e que o grupo testado seja de especialistas da área. Ou seja, conforme os dados obtidos nessa pesquisa, nem mesmo especialistas no assunto estão totalmente imunes ao apelo ‘neurocientífico’.

Em outro artigo, ‘Neuromyths in education: Prevalence and predictors of misconceptions among teachers’, realizado em parceria entre pesquisadores das universidades de Amsterdam (Holanda) e Bristol (Reino Unido) e publicado em 2012 em Frontiers in Psysichology, sugere-se que professores, entusiasmados com a possibilidade de aplicação dos resultados da neurociência, têm dificuldade em distinguir ciência de pseudociência e que apenas possuir conhecimentos gerais sobre o cérebro “não parece protegê-los da crença em neuromitos”.

Só compreendendo melhor como as neurociências funcionam será possível aos professores diferenciá-las claramente das pseudociências

Entre as recomendações, um alerta: reforçar a formação (confiável) em neurociências para que os professores possam julgar melhor o que tem sido afirmado (e vendido) como conhecimento científico relacionado a essa nova área em formação.

Além dessa recomendação, no entanto, vale uma ainda mais importante, prescrita por Carl Sagan e já discutida aqui em artigo anterior: é preciso que o ensino de ciências, inclusive aquele oferecido aos professores, foque mais como a ciência funciona, do que meramente o que a ciência descobre. Afinal, só compreendendo melhor como as neurociências funcionam (e em especial a forma como se obtêm os dados e as limitações de seus métodos) será possível aos professores diferenciá-las claramente das (neuro)pseudociências.

Como opina Molly Crockett, o potencial das neurociências para tratar distúrbios mentais, e talvez até “para nos tornar melhores e mais espertos”, pode ser animador, mas o fato é que ainda estamos muito distantes disso. Não se encontrou um “botão de comprar no cérebro”, afirma a pesquisadora, assim como ainda não se pode dizer se alguém está mentindo ou amando apenas “olhando seus mapeamentos cerebrais”.

Portanto, observa ela, é preciso ter cuidado para não deixar que afirmações exageradas desviem recursos e atenção da verdadeira ciência, e ficar alerta em relação aos “neuroabsurdos”. “Se alguém tentar vender algo com uma imagem de um cérebro junto, não confiem apenas em suas palavras. Questionem, peçam para ver as evidências, descubram a parte da história que não está sendo contada. As respostas não deveriam ser simples, porque o cérebro não é simples. Isso não nos impede, no entanto, de tentar entendê-lo”, diz a neurocientista.

Pestilência intelectual

Na mesma linha, vale a pena ler também o artigo ‘Your brain on pseudoscience: the rise of popular neurobollocksis’ (em uma tradução livre, ‘Seu cérebro sob o efeito da pseudociência: a ascensão da neurobobagem popular’), do jornalista Steven Poole, publicado originalmente em 2012, em New Statesman, e traduzido para o português emOpinião & Notícia.

Em um ataque virulento ao que considera uma “pestilência intelectual”, Poole denuncia a enxurrada de livros que prometem explicar, por meio de estudos de ”imageamento cerebral bonitinhos, não apenas como o pensamento e as emoções funcionam, mas os mecanismos da política e da religião, bem como respostas a controvérsias filosóficas milenares”. É uma “praga de neurocientificismo”, que também pode ser chamada de “neurobaboseira, neurobobagem ou neurolixo”, diz ele.

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Ao incluir nos rótulos imagens de cérebros ou informações consideradas neurocientíficas, vendedores buscam aumentar a credibilidade de seus produtos. (imagem: Sxc. hu)

Segundo Poole, a explicação “neural” tem se tornado um “padrão áureo”, associado a todo um novo setor de “charlatanismo intelectual”, que pretende desvendar até fenômenos socioculturais complexos. Basta adicionar o prefixo ‘neuro’ a qualquer assunto sobre o qual se está falando, para “vender ciência incompetente como ciência de verdade”.

Uma visita rápida a uma livraria é suficiente para concordar com Poole. “Não é difícil encontrar livros cujos títulos ou subtítulos incluam o prefixo ‘neuro’: neuroeconomia, neurogastronomia, neuropolítica, neurocrítica, neuroteologia, neuromagia e até neuromarketing”, exemplifica.

Mera e perigosa ilusão

Voltando à educação – o tema de maior interesse aqui –, o médico britânico Bel Godacre, em seu livro Ciência picareta (Bad science, no original em inglês), publicado pela Civilização Brasileira no ano passado, relata um caso de espantar. Trata-se da ‘ginástica cerebral’, programa comercializado por altas cifras e instituído no sistema público de todo o Reino Unido que prescreve comportamentos e exercícios para desenvolver o cérebro.

Entre as recomendações, conta Godacre, encontram-se muitas sem qualquer fundamento, como movimentar a cabeça para trás e para frente com o objetivo de “aumentar a circulação no lobo frontal, provocando maior compreensão e pensamento racional”.

Bel Godacre: “A adoção do programa de ‘ginástica cerebral’ é um absurdo e um ótimo exemplo de como ideias pseudocientíficas estão avançando sobre a educação”

Segundo o médico, a adoção do programa em si é um absurdo e um ótimo exemplo de como ideias pseudocientíficas estão avançando sobre a educação. No entanto, para ele, mais absurdo ainda é o fato de os professores, principalmente os de ciências, terem se deixado “iludir” com palavras técnicas e imagens do cérebro e “engolido” esse programa sem resistência ou crítica.

No Brasil, ainda não estamos bebendo ‘neurodrinques’ ou fazendo ‘ginástica cerebral’ em nossas escolas (que eu saiba), mas as prateleiras de nossas livrarias estão cheias de ‘neurolivros’. Além disso, qualquer um que transita no meio educacional percebe o encantamento dos professores com os conhecimentos gerados pelas neurociências e suas possíveis aplicações no campo da educação (realmente promissoras) e que isso se reflete, por exemplo, na busca (e no oferecimento) crescente de cursos de pós-graduação sobre o tema.

É recomendável, portanto, estar atento e engajar-se nessa discussão: neurociência aplicada à educação é bem-vinda, mas (neuro)pseudociência, não.

Leia também
Guerra, L. B. O diálogo entre neurociência e a educação: da euforia aos desafios e possibilidadesRevista Interlocução, v.4, n.4 (2011), p.3-12.
OLIVEIRA, G. G. de. Neurociência e os processos educativos: um saber necessário na formação de professores. Dissertação de mestrado, Universidade de Uberaba, 2011.


Vera Rita da Costa
Ciência Hoje/ SP

 

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2014/02/a-ascensao-da-neurobobagem-popula/view

Nossa memória não é uma filmadora: ela edita o passado com informações do presente


De acordo com um novo estudo da Universidade Northwestern (EUA), em termos de precisão, sua memória está mais para editor do que para câmera de vídeo. Isso porque ela reescreve o passado com informação moderna, atualizando suas lembranças com novas experiências.

O amor à primeira vista, por exemplo, é mais propenso a ser um truque de sua memória do que um momento digno de Hollywood. “Quando você volta à ocasião quando conheceu seu parceiro atual, você pode recordar um sentimento de amor e de euforia”, explica Donna Jo Bridge, pós-doutoranda em ciências sociais da Universidade e uma das pesquisadoras do estudo. “Mas você pode estar projetando seus sentimentos atuais neste encontro original com a pessoa”.

 

Este é o primeiro estudo a mostrar especificamente como a memória pode inserir coisas do presente no passado, quando lembranças antigas são recuperadas. E por que ela faz isso? “Para nos ajudar a sobreviver”, explica Bridge. “Nossas memórias se adaptam a um ambiente em constante mudança e nos ajudam a lidar com o que é importante agora. Nossa memória não é como uma câmera de vídeo. Ela reformula e edita eventos para criar uma história que caiba no seu mundo atual. Ela foi construída para ser contemporânea”.

A noção de uma memória perfeita é um mito, disse Joel Voss, autor sênior do estudo. “Todo mundo gosta de pensar na memória como essa coisa que nos permite lembrar vividamente nossa infância ou o que fizemos na semana passada. Mas a memória é projetada para nos ajudar a tomar boas decisões no momento. A informação que é relevante agora pode substituir o que já estava lá antes”, afirma.

O estudo

Os pesquisadores descobriram que essa “edição” acontece no hipocampo. No experimento, 17 homens e mulheres estudaram 168 objetos em uma tela de computador em locais variados, como uma cena do oceano debaixo d’água ou uma vista aérea do Centro-Oeste americano.
Em seguida, os cientistas pediram que eles tentassem colocar o objeto no seu local original, mas em uma nova tela de fundo. Os participantes sempre colocavam os objetos em um local incorreto.

Para a parte final do estudo, os voluntários viram de novo o mesmo objeto em três locais na tela: no local em que inicialmente tinham visto o objeto, no local em que o colocaram na parte 2 do estudo ou em um novo local. Eles precisavam escolher o local correto.

“As pessoas sempre escolhiam o local que tinham posto o objeto na parte 2″, esclarece Bridge. “Isso mostra que a sua memória original do local foi alterada para refletir o local que lembravam sobre a nova tela de fundo. Sua memória atualiza as informações, inserindo os novos dados na lembrança antiga”.

Os cientistas também acompanharam os movimentos dos olhos dos participantes que, por vezes, eram mais reveladores sobre o conteúdo de suas memórias, além de realizar o teste em um scanner de ressonância magnética para que pudessem observar a atividade cerebral das pessoas.

Bridge analisa as implicações do estudo sobre depoimentos de testemunhas oculares em tribunais. “Nossa memória é construída para mudar, não regurgitar fatos, por isso testemunhas não são muito confiáveis”, diz.

A ressalva da pesquisa é que ela foi feita em um ambiente experimental controlado. “Embora esse resultado tenha sido visto em um ambiente de laboratório, é razoável pensar que a memória se comporta desta maneira no mundo real”, fala.

Fonte: http://hypescience.com/nossa-memoria-edita-o-passado-com-informacoes-do-presente/

Cientistas conseguem observar moléculas se transformando em memória [vídeo]


Pesquisadores da Universidade Yeshiva (Nova York, EUA) realizaram um feito inédito: acompanharam moléculas viajando em tempo real nos neurônios vivos de ratos para estudar como o cérebro cria memórias.

O esforço para descobrir como os neurônios criam memórias há muito tempo enfrenta um grande obstáculo: neurônios são extremamente sensíveis a qualquer tipo de interrupção. Para analisá-los profundamente sem prejudicá-los, os pesquisadores “etiquetaram” com fluorescência todas as moléculas do RNA mensageiro (mRNA) que codificam proteínas beta-actina – uma proteína estrutural essencial encontrada em grandes quantidades nos neurônios e considerada chave no processo de memorização.

“É digno de nota que fomos capazes de desenvolver este rato sem ter que usar um gene artificial ou outras intervenções que poderiam ter interrompido seus neurônios e questionado nossos resultados”, disse Robert Singer, autor sênior do estudo e professor e copresidente do departamento de anatomia e biologia estrutural do Colégio de Medicina Albert Einstein da Universidade Yeshiva. Os animais permaneceram saudáveis e capazes de se reproduzir.

Na pesquisa descrita em dois artigos publicados na revista Science, os pesquisadores estimularam neurônios do hipocampo de ratos, onde as memórias são feitas e armazenadas, e depois assistiram moléculas fluorescentes se formarem nos núcleos de neurônios e viajarem dentro dos dendritos, ramificações dos neurônios.

Eles descobriram que o mRNA em neurônios é regulado por meio de um processo descrito como “mascaramento” e “desmascaramento”, que permite que a proteína beta-actina seja sintetizada em horários, quantidades e locais específicos.

Os neurônios se unem nas sinapses, onde “espinhas dendríticas” agarraram umas às outras, assim como os dedos de uma mão podem se entrelaçar com os da outra. Evidências indicam que a estimulação neural repetida aumenta a resistência dessas ligações sinápticas, alterando a forma destes “dedos”.

A proteína beta-actina parece fortalecer essas conexões sinápticas, alterando a forma das espinhas dendríticas. Os cientistas pensam que as memórias são codificadas quando conexões sinápticas estáveis de longa duração entre os neurônios entram em contato umas com as outras.

O estudo

O primeiro artigo descreve o trabalho de Hye Yoon Park, estudante de pós-doutorado no laboratório do Dr. Singer que passou três anos desenvolvendo os mRNA fluorescentes.

Ela estimulou neurônios do hipocampo de ratos e observou moléculas recém-formadas dentro de 10 a 15 minutos, indicando que a estimulação do nervo tinha causado transcrição rápida do gene da beta-actina. Outras observações sugeriram que estas moléculas continuamente montavam-se e desmontavam-se em partículas grandes e pequenas, respectivamente.

Estas partículas de mRNA foram vistas viajando para seus destinos em dendritos onde a proteína beta-actina seria sintetizada.
No segundo artigo, a estudante do mesmo laboratório Adina Buxbaum mostrou que os neurônios podem ser únicos na sua maneira de controlar a síntese da proteína beta-actina.

Os neurônios precisam controlar seu mRNA para que ele crie proteína beta-actina apenas em certas regiões na base das espinhas dendríticas. A pesquisa de Buxbaum revelou o mecanismo pelo qual os neurônios lidam com este desafio.

Ela descobriu que, logo que moléculas de mRNA de beta-actina se formam no núcleo de neurônios do hipocampo e viajam para o citoplasma, os mRNAs são embalados em grânulos e assim tornam-se inacessíveis para a produção de proteína. A estudante então percebeu que estimular o neurônio fez com que esses grânulos desmoronassem, e moléculas de mRNA ficassem “desmascaradas” e disponíveis para a síntese de proteína beta-actina.

Mas essa observação levantou uma questão: como é que os neurônios evitam que mRNAs recém-liberados façam mais proteína beta-actina do que é desejável?

A disponibilidade de mRNA em neurônios é um fenômeno transitório. Após as moléculas de mRNA produzirem proteína por alguns minutos, elas se “reembalam” e voltam a ser “mascaradas”.

Estes resultados sugerem que os neurônios têm desenvolvido uma estratégia engenhosa para controlar como as proteínas de memória fazem o seu trabalho.

“Esta observação de que os neurônios ativam seletivamente a síntese de proteínas e, em seguida, a desligam se encaixa perfeitamente com a forma como pensamos que as memórias são feitas”, disse Singer. “A estimulação frequente do neurônio torna o mRNA disponível em explosões controladas, fazendo com que a proteína beta-actina se acumule precisamente onde é necessária para fortalecer a sinapse”.

Fonte: http://hypescience.com/cientistas-conseguem-observar-moleculas-se-transformando-em-memoria-video/